quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
sábado, 24 de dezembro de 2011
EM LUZ SEM MEDO DO ESCURO

EM LUZ SEM MEDO DO ESCURO
Aceita a noite, sua escuridão irmã, seu silencioso breu
Fecha os olhos e atravessa
Esta ilusão feito treva.
E assim, entregue
Ouça o ressonar da estrela
que centelha
espelha ondas sonoras
Agora.
Dorme. Confia.
Teus segredos
E teu poder de sonhar
Às ondas sim sonoras que compõem
Em brilho estelar música suave
Harmonia na noite linda negra
Do céu que te cobre
E protege. Para sempre!
Assim seja.
Valdiva Araujo Santos 02/02/2015
Dedicado a Daniel Lucas Araujo
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Luz Noite Escuridão Música estelar
NASCER EM LUZ VIVER EM LUZ
VIDA LUZ
menino deus
senhor das brincadeiras e das alegrias constantes
... menino... deus
que abenções a vida e a terra citilante
menino deus
do abebé e do ifá que sua atenção caia sobre mim
menino deus
do ouro das pedras de arco-íris
menino deus
do arco e da flecha que aponta o destino
menino deus da prosperidade
menino rei da bondade
menino deus guarda os meus passos
menino deus me acolha em seus braços
menino deus
senhor do mundo
senhor da esperança
guie os meus passos
sob seu manto azul, ouro e branco
De: Menote Cordeiro
http://www.menote.com.brVe/
www.menote.com.brVe
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
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XINGU VIVO PARA SEMPRE: AMAZÔNIA DEUSA
Perfeição e atitude
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
domingo, 4 de dezembro de 2011
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sábado, 3 de dezembro de 2011
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segunda-feira, 28 de novembro de 2011
O espírito, a mente e o corpo
O espírito, a mente e o corpo
''O
espírito é uma música, uma fala sagrada que se expressa no corpo; e este, por
sua vez, é a flauta, o veículo por onde flui o canto que expressa o
ser-luz-som-música, que tem sua morada no coração.
Esta flauta é feita da urdidura de quatro pequenas almas que
precisam estar afinadas para melhor expressar o fogo sagrado que da vitalidade,
capacidade criativa e realizadora.
Por isso fez-se a dança: para afinar todos os espíritos
pequenos do ser, para que estes cantem sua música no ritmo do coração da Mãe
Terra, que dança no ritmo do coração do Pai Sol que, por sua vez, dança no
ritmo do Amor Incondicional.''
Kaká Werá
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Educação em Movimento Revolucionário
MST comemora 15 anos da Escola Itinerante
Por Isabela Camini

"Os poderosos não temem os pobres, temem os pobres que pensam. As escolas do MST ensinam os estudantes a pensar e, por isso, são condenadas e proibidas. Esta condenação apenas vem confirmar o fato de que os que não amam a democracia querem o povo ignorante para poder continuar a tratá-lo como massa de manobra e impedir que busque seus direitos e viva sua cidadania" (Eduardo Galeano).
Comemorar 15 anos de existência da Escola Itinerante dos acampamentos do MST - uma experiência escolar pública, estadual, itinerante, que se pretende contra-hegemônica à existente escola capitalista, pode-se considerar um avanço importante para os movimentos sociais do campo, de modo especial para o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, cuja luta pela Reforma Agrária, em toda a sua história, é entrecruzada com a luta pela educação e escola.
Frente às inúmeras criações e invenções no campo da educação, com pouco êxito e sustentação, nos últimos anos, seja pela fragilidade da proposta ou falta de convicção e projeto social de seus propositores, se torna necessário que o MST faça uma reflexão acerca das experiências escolares itinerantes, desenvolvidas no decorrer de 15 anos da Escola Itinerante, reconhecida e aprovada pela primeira vez (1996), no estado do Rio Grande do Sul. Salientamos que neste período, esta experiência se expandiu para outras regiões do país, forjando o Movimento a voltar seu olhar, com mais afinco, para a escola e para a formação de educadores, na perspectiva da classe trabalhadora. Vale destacar também as inúmeras pesquisas e sistematizações, realizadas neste período, que referenciam, de modo especial, a Escola Itinerante organizada e desenvolvida nos acampamentos do MST do Rio Grande do Sul e Paraná, como um projeto de escola próximo à Pedagogia do Movimento, conectada com a vida e com as práticas sociais que a cercam.
Para lembrar, atualmente a forma escolar itinerante encontra-se aprovada em seis estados: Rio Grande do Sul (1996), Paraná (2003), Santa Catarina (2004), Goiás (2005), Alagoas (2005) e Piauí (2008). Porém, em Goiás a experiência foi desenvolvida durante apenas dois anos, e no Rio Grande do Sul suas atividades foram interrompidas pelo TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado entre Secretaria de Estado da Educação e Ministério Público do RS, no final do ano de 2008, essa questão será abordada mais adiante.
É, portanto, sobre algumas lições e aprendizados obtidos com a Escola Itinerante, construída, praticamente, em cenários de conflitos: tensões, contradições e dificuldades que queremos refletir neste pequeno texto. Todavia, temos presente à impossibilidade de tratarmos, brevemente, aspectos importantes desta experiência, dada sua singularidade em cada acampamento, marchas, despejos, e outros espaços, nos quais esta escola se fez presente pelo período e/ou tempo exigidos pelas mobilizações das famílias acampadas. Situações essas, impostas pela morosidade no que tange às questões relacionadas ao projeto de Reforma Agrária proposto pelos trabalhadores.
Rememorando a história
Para melhor entendimento de nossa reflexão, acerca da Escola Itinerante, reportamo-nos ao tempo e à memória, trazendo presente dois fatos/acontecimentos, expressos com particularidades diferentes, mas que marcaram a história do MST, ocorridos em um dos períodos mais férteis de expansão do Movimento para outras regiões (1990), os quais são expressos com particularidades diferentes. Para entender a relação que estabelecem entre si e o sentimento que provocam nos militantes, a cada ano que passa, esses acontecimentos serão identificados pela ordem cronológica.
Em abril de 1996, o Massacre do Eldorado dos Carajás, no Pará, com dezenove trabalhadores sem terra, assassinados.
Em novembro do mesmo ano, aprovação da proposta de Escola Itinerante dos acampamentos do MST no Rio Grande do Sul, Estado pioneiro em reconhecer a trajetória e a experiência de escola que vinha sendo delineada e construída como projeto, para o atendimento às crianças e adolescentes em situação de acampamento, desde as primeiras ocupações de terras improdutivas no estado, na década de mil novecentos e oitenta.
Embora o primeiro fato, que indignou o mundo pela sua crueldade, tenha ocorrido no mês de abril, em uma ponta do país - na região Norte, e o segundo, um acontecimento que representou um avanço para o projeto educativo do Movimento, ocorrido no mês de novembro, em outra ponta do país - na região Sul, são fatos relacionados entre si, porque ambos aconteceram no interior do Movimento Social, articulado pelos mesmos princípios, em vinte e quatro estados da Federação. Portanto, os acontecimentos do MST no RS, no Pará, ou noutro estado, repercutem imediatamente na Organização em nível nacional. Sendo assim, tanto o massacre sangrento dos dezenove sem-terra no Pará, quanto à criação da Escola Itinerante no Rio Grande do Sul, respeitadas suas particularidades, são acontecimentos que marcaram o calendário de lutas do MST lembrados de maneira especial nos meses de abril e novembro de cada ano. Seguramente, pela sua repercussão e significado, esses dois fatos continuam irradiando seus efeitos 15 anos depois.
Criação em 1996
Em relação ao Massacre de Eldorado dos Carajás assistimos a cada ano, na agenda de lutas batizada de Abril Vermelho, em várias regiões do país, inúmeras manifestações, ocupações e celebrações visando manter viva a memória daqueles companheiros que tombaram pela mão do poder opressor do capital. Essas manifestações intencionam relembrar à sociedade o crime cometido pelo Estado burguês contra a vida dos trabalhadores do campo, denunciar a não realização da Reforma Agrária e, ao mesmo tempo, preservar a memória de fatos que marcaram a época, e que ainda sangram nas veias do MST, por ver a impunidade dos culpados.
O segundo fato anunciado, o qual se constitui a razão fundamental deste pequeno texto, se relaciona com a Escola Itinerante dos acampamentos do MST, criada em 19 de novembro de 1996, no estado do Rio Grande do Sul, e, em seguida, expandida para outras regiões do país onde o MST está organizado.
Assim, como o primeiro fato, que continua a indignar até hoje, merecedor de denúncia permanente, o segundo, também é destacado com comemorações alusivas a data de 19 de novembro, de cada ano, de modo especial nos estados e comunidades acampadas, onde a escola pública está sendo recriada/reinventada - em sua forma e conteúdo, denominada de Escola Itinerante.
Entre tantos fatos marcantes, na história da luta pela terra encampada pelo MST, na década de 1980 até nossos dias, os dois fatos que anunciamos acima, motivam e renovam, a cada ano, a vivência de uma mística que neutraliza os ídolos do egoísmo, que recoloca a necessidade de lutar e construir ao mesmo tempo, capaz de mexer com a alma dos militantes.
Como se pode observar, a contradição é visível, pois o Estado burguês que matava trabalhadores sem terra, acampados no Pará, ao mesmo tempo aprovava o direito de crianças em iguais condições frequentarem a escola pública estadual, no sul do país.
Fechamento no RS
Embora nosso texto não queira centrar o foco no Termo de Ajuste de Conduta - TAC, firmado entre Secretaria de Estado da Educação e Ministério Público do RS, no final do ano de 2008, o qual determinou o fechamento das sete escolas itinerantes dos acampamentos do MST do RS, deixando sem escola, em torno de 600 crianças e adolescentes, obrigando-as a estudarem em escolas urbanas, é importante fazer uma pequena memória do ocorrido, uma vez que, até o momento, dois anos e meio após o ocorrido, as atividades escolares itinerantes ainda não foram retomadas.
Em consequência desse fato, no início do ano letivo de 2009, inúmeras mobilizações foram realizadas, pelo MST e seus apoiadores, do campo e da cidade, na direção de retomá-las. No entanto, governo e Ministério Público mantiveram-se inertes e indiferentes à voz e as manifestações da sociedade civil que se via no direito de lutar e exigir que o governo e Ministério Público revissem suas decisões. Todavia, as vezes que se manifestaram foi no sentido de reafirmar a intransigente decisão da não reabertura das mesmas, alegando que os conteúdos escolares veiculados na Escola Itinerante eram de cunho ideológico. Ignorando o drama das famílias acampadas, obrigadas a separar-se dos filhos em idade escolar, Governo e Ministério Público se limitaram a pressioná-las para que buscassem vagas em escolas da rede pública, estadual ou municipal, localizadas próximas dos acampamentos. No entanto, esta procura só foi feita mediante pressão e ameaça da brigada militar e oficiais de justiça junto aos acampados. Surpreendentemente, essas instituições visitaram as comunidades acampadas a fim de fiscalizar se havia alguma criança não matriculada nas escolas indicadas. No entanto, se negaram a informar que em alguns casos, a escola mais próxima se encontrava há 30 ou até 50 km, distante. Ou seja, aqueles educandos que encontraram vagas e se submeteram ao transporte escolar para chegarem à escola, tiveram de enfrentar muitas horas de viagem, além de conviver com o preconceito por serem “sem terra”.
Como é do conhecimento de muitas pessoas, porque o debate à época foi polêmico e veiculado pela imprensa, relembramos que a decisão do fechamento das sete escolas itinerantes, pelos mesmos órgãos públicos que deveriam assegurar o direito, em vez de violá-lo, levou inúmeros educandos à reprovação, à perda do ano letivo, e, consequentemente, ao fracasso escolar. Curiosamente e estranhamente a Secretaria de Estado da Educação, em vez de resolver o problema baseado no princípio do diálogo, buscou solucioná-lo da forma mais violenta e truculenta possível, apoiando-se no efetivo da brigada militar, uma instituição que tem outras funções sociais. Desse modo, confirmam-se as inúmeras críticas já conhecidas ao sistema escolar vigente, sempre muito preocupado com o acesso das crianças à escola, porém, deixando em segundo plano a preocupação com a permanência e qualidade do ensino nas escolas onde estudam os filhos dos trabalhadores, especialmente nas escolas do campo. É dessa forma que a Escola Itinerante, solução encontrada ainda no ano de 1996, no Rio Grande do Sul, para atender as crianças e adolescentes nos acampamentos, tem suas atividades escolares proibidas doze anos depois, sem diálogo e sem consentimento do Movimento Social que conquistou essa escola, como solução viável para manter os filhos próximos aos pais enquanto lutam pela terra. Portanto, se constituiu um ato autoritário e prejudicial, em grande medida, para as famílias Sem Terra. Em outras palavras, podemos dizer que este foi mais um ato, contra os direitos humanos de um povo, já desprovido de outros direitos, pela sua humanidade roubada, há tempo, pelo sistema capitalista.
Dignidade
Todavia, no que pese a importância desta Organização e o sonho que alimenta seu projeto social, este povo tenta de todas as formas reencontrar sua dignidade, esperança e sentido, participando da luta pela terra, vivendo nos acampamentos e mobilizando-se com eles, sem descuidar da escola para seus filhos.
Neste momento, praticamente três anos deste ocorrido, o referido termo (TAC) está sendo questionado e considerado sem valor legal pelo atual governo do estado.
Em face deste novo cenário, sem visualizar a solução do problema em curto e médio prazo, algumas perguntas se fazem necessárias: Porque esta escola foi fechada e negada como direito do povo e dever do Estado? Qual a responsabilidade cabível ao Estado, no que se refere aos prejuízos causados para as crianças e adolescentes Sem Terra, durante quase três anos em que a Escola Itinerante se encontra proibida de desenvolver atividades escolares? O governo de Yeda Crucius, à frente deste Estado, no período de 2007-2010, não será responsabilizado por isso?
Como integrante na luta pela Escola Itinerante do MST, e pesquisadora nesta área, tenho contribuído, ao longo dos 15 anos, no processo de construção e elaboração de sua proposta educativa, fundamentalmente pelo papel social que a escola desempenhou e desempenha ao tornar-se referência, expandindo-se para outros estados da federação. Temos presente que, à medida que fomos recriando a escola e construindo a Itinerante com uma forma escolar diferente, ela tem nos provocado a pensar uma outra escola nos assentamentos. Talvez, por isso, ela tenha sido tão questionada por parte do Sistema, ao mesmo tempo, elogiada por aqueles que acreditam nesta possibilidade.
Educação básica
Ainda nesta parte, é importante salientar que a Escola Itinerante dos acampamentos, mesmo tendo sido reconhecida pelos órgãos públicos somente em 1996, é uma retomada das primeiras experiências educativas iniciadas na década de 1980, no Estado do Rio Grande do Sul, que foi pioneiro em reconhecer a Escola Itinerante como pública estadual, e também, pioneiro em interromper e proibir as atividades da mesma.
Faz-se necessário mencionar e destacar, neste texto, que no Paraná, o segundo Estado a reconhecer a Escola Itinerante (2003), tomando por base a experiência em desenvolvimento no RS, gradativamente foi ampliando a experiência da Escola Itinerante para o conjunto da Educação Básica, ou seja, hoje, mantém escolas itinerantes de ensino fundamental e ensino médio, organizadas em várias comunidades acampadas, evitando problemas de reprovação, ou ainda, a perda do ano letivo para muitos Sem Terra. Todavia, este avanço e compreensão da necessidade de uma escola alternativa, itinerante, viável para a condição em que vivem os Sem Terra no Paraná, não resultam do simples fato do Estado Burguês empenhar seus esforços e acreditar neste projeto, mesmo que em alguns casos tenha sido parceiro, especialmente no apoio aos processos de sistematização e divulgação da proposta de Escola Itinerante no período de 2007 - 2010. Esse avanço, sem dúvida, é fruto do enfrentamento das contradições e dificuldades nas relações entre Movimento Sem Terra e Estado, que, independente do apoio ou não do poder público, continua sua luta pelo direito à escola e sua transformação, propondo e construindo pouco a pouco, a nova escola, mesclando o ensino com a vida.
Ajustamento
Neste sentido, tem-se a clareza dos limites e dificuldades que teremos que enfrentar, enquanto Organização Social, na tentativa de contrariar o projeto hegemônico de escola. Mesmo assim, existe a certeza que valerá a pena assegurá-la nos acampamentos, fazendo de tudo para que a escola dos sem terra não tenha um retrocesso e volte ao leito e a vocação para a qual a instituição escolar foi organizada e assegurada historicamente, a serviço dos interesses e ideais das classes dominantes no decorrer dos últimos séculos.
Como acabamos de ver, o fato da referida experiência de escola do RS ter sido motivadora e incentivadora para a criação de escolas itinerantes no Paraná, em Santa Catarina, em Goiás, no Piauí e em Alagoas, e de ter motivado inúmeras pesquisas acadêmicas e processos de sistematização, que tornaram conhecida a Escola itinerante dos Sem Terra, não foi determinante para a abertura de diálogo que pudesse reverter o TAC. Cabe destacar que, enquanto as escolas itinerantes do RS se encontram fechadas há mais de dois anos, em outros estados, essa forma escolar continua sendo a solução adequada e viável para o atendimento dos filhos das famílias que vivem em condições de itinerância na luta pela Reforma Agrária.
Embora nosso texto tenha por objetivo principal tratar das lições e aprendizados obtidosnos espaços das escolas itinerantes, comemorando sua existência há 15 anos nos acampamentos do MST, não seria justo deixar de mencionar, e mais uma vez, denunciar, a intransigente decisão tomada pelo Estado do Rio Grande do Sul, de negar o direito à educação às famílias Sem Terra. Também, é oportuno dizer que mesmo a Escola Itinerante almejando êxito por se constituir um contraponto à escola convencional, por estar inserida em uma realidade em que as práticas sociais são latentes, tal qual um acampamento, uma marcha, conforme comprovado em tese, não se tornaria conhecida, estudada e debatida, senão tivesse sido impedido seu funcionamento, no final de 2008.
Retrocesso
Contudo, entende-se que esta foiuma decisão, a princípio, profundamente contraditória e autoritária, pois desrespeitou o direito das famílias acampadas, de manterem seus filhos próximos a elas, situação, essa, favorecida quando do reconhecimento da Escola Itinerante na itinerância dos acampamentos, em 19 de novembro de 1996, pelo Conselho Estadual de Educação e Secretaria de Educação, em um governo pouco progressista do PMDB. Esse foi um ato de governo, considerado à época, sensível às causas pelas quais o povo lutava, entra elas, o direito a uma educação alternativa, podendo organizar e recriar a escola em locais distantes onde se encontra o povo em luta. Entretanto, após doze anos do desenvolvimento desta experiência, vem outro ato de governo, retrocedendo o anterior, determinando o fechamento e a proibição desta Escola.
Concluindo esta breve reflexão sobre o fechamento da EI, trazemos novamente Eduardo Galeano, porque ele sintetiza o pensamento dos trabalhadores: “Os poderosos não temem os pobres, temem os pobres que pensam. As escolas do MST ensinam os estudantes a pensar e por isso são condenadas e proibidas...”.
Perspectiva e tarefa atual
Hoje, analisando a trajetória desta escola, contabilizando-se todos os desafios enfrentados percebe-se o quanto a Escola Itinerante tem representado para o Movimento, sobretudo, pelas provocações e interrogações que vem lhe fazendo, no decorrer de 15 anos. Também, pelo trabalho e dedicação exigidos das comunidades, que lutam por mantê-la em suas áreas, por exemplo, frente a um despejo do acampamento, frente a um vendaval que destrói sua estrutura física, e/ou frente ao inesquecível acontecimento da queima da Escola Itinerante Dandara, pelo efetivo da brigada militar, no acampamento Sepé Tiarajú, Fazenda Guerra, município de Coqueiros do Sul em 2006, entre outros.
Aqui, poderíamos trazer inúmeros exemplos que indignaram e mobilizaram as comunidades acampadas na construção e em defesa dessa escola. Sabe-se, porém, que a Escola Itinerante, para essas comunidades, teve e terá sempre um novo sentido, à medida que se mantém conectada à vida e as práticas sociais dos sujeitos engajados na luta por outro projeto social. Sendo assim, a escola neste contexto não teria sentido e viabilidade em outro espaço. Portanto, a presença da escola nestes espaços terá que ser na perspectiva da intencionalidade formativa do projeto social que este povo tem como horizonte. Neste sentido, relembramos o que foi dito acima. Ao ser fechada a Escola Itinerante no RS, acusada de ser ideológica, a classe dominante tenta negar que toda a instituição escolar é ideológica, porém, de forma não explicitada. Sabemos que por ser itinerante imersa na luta social, a Escola Itinerante explicita sua não neutralidade, frente à luta social latente e as condições de vida extremadas que vivem os Sem Terra.
O Movimento, enquanto Organização social, não tem dúvida do papel que a Escola Itinerante assumiu ao longo de 15 anos.
Nasdiversas escolas organizadas nos acampamentos, denominadas com nomes de lutadores do povo, tais como: Che Guevara, Olga Benário, Zumbí dos Palmares, Oziel Alves, Paulo Freire, e outros, escolarizaram-se centenas de crianças, adolescentes e jovens que puderam continuar seus estudos no ensino médio e superior, além de contribuir e forjar este Movimento a mover-se na direção do cuidado com o conjunto da escola, seja de acampamento ou de assentamento. Neste sentido, Alessandro Mariano, do setor de educação do MST do Paraná, nos revela algo bem importante: “A Escola Itinerante do MST, criada em 2003, no estado do Paraná, nos obrigou a olhar para a escola do MST”.
Referência
Sendo assim, a Escola Itinerante, embora ainda longe de ser a escola que os trabalhadores do campo buscam, torna-se referência de escola para os filhos dos acampados, dando-lhes a oportunidade de estudar enquanto lutam, sendo agente-fermento, contribuindo na formação desses lutadores sociais, de acordo com a realidade de cada região onde está inserida. Essa Escola, e sempre provocada para ser diferente econtrariar o projeto de escola hegemônica, continua a refazer-se em acampamentos dos Sem Serra do Paraná, Santa Catarina, Alagoas e Piauí, como “semente que se espalha e cresce com vigor”, conforme depoimento de Pedro Tierra, ao perceber a presença de inúmeras crianças e adolescentes, em idade escolar, no acampamento de Eldorado dos Carajás, logo após o massacre dos dezenove sem terra, em 1996.
Portadora de uma experiência singular, a escola da qual estamos falando, é itinerante, mesmo que possa parecer estranho aos olhos de muitas pessoas, incapazes de admitir uma forma escolar diferente daquela escola, geralmente cercada pelas grades e localizada, fisicamente, distante da vida daquelas pessoas que a frequentam.
É itinerante porque inserida no meio social que a conquistou, a mantêm viva sob a orientação da Pedagogia do Movimento. É itinerante por sua natureza. E é de sua natureza não fechar-se sobre si mesma, ignorando a realidade que a cerca, ou visitando-a de vez e outra, sem importar-se com ela ao retornar à sala de aula e ao retomar o currículo pré-estabelecido, exigido e imposto pelo Sistema. É de sua natureza manter-se aberta para a vida, sem, contudo sentir-se aprisionada pelas estruturas físicas que a impedem de mobilizar-se, à medida da necessidade da luta. É itinerante porque construiu uma organização coletiva que a permite caminhar em movimento, sem aprisionar-se a um único lugar - sala de aula, considerado pela escola convencional, quase único e imprescindível espaço favorável para aprender. Por isso, a Itinerante, ao mesmo tempo em que assusta, despertando debates acerca dela, também aponta a possibilidade de outro jeito de escola.
Sendo assim, torna-se difícil e complexo descrever o que significou a conquista do direito de estudar nos acampamentos, a presença desta forma escolar num espaço de permanentes lutas e contradições, além de todo o trabalho realizado no sentido de transformar esta escola no decorrer de quinze anos. Nossa pretensão aqui é apenas fazer memória e levar o leitor a refletir sobre alguns fatos que marcaram a sua trajetória.
Desafio
Herdeira das primeiras iniciativas educativas do Movimento, a Escola Itinerante, por pretender-se diferente da escola burguesa, tem se tornado um desafio permanente para o MST, pois é um projeto a ser construído passo a passo, com persistência, tendo em vista as reais circunstâncias físicas e conjunturais onde ela precisa ser construída, desfeita e reconstruída novamente, dependendo da mobilização, ocupação ou um despejo. Neste sentido, precisamos destacar o trabalho incansável dos coletivos de educadores e comunidades acampadas, onde existe ou já existiu alguma escola itinerante, no sentido de não reproduzirem nesse espaço escolar, a forma escolar hegemônica, da qual, a classe trabalhadora precisa se libertar, à medida que se empenha para construir a sua escola, buscando conhecer as experiências educativas bem sucedidas de outros países, mesmo que em tempos e contextos distintos.
Construída com muito trabalho, identidade e mística, a Escola Itinerante do MST, sempre foi uma interrogação para o Movimento, porque desde o início ela não poderia atrapalhar e impedir as mobilizações, próprias do movimento pela Reforma Agrária. Por isso, buscououtra forma deorganização, capaz de acompanhar a luta, sem prejuízo de dias letivos. Portanto, a forma escolar itinerante deu conta deste objetivo.
Experiências
Entre muitos debates e estudos realizados para encontrar o caminho que viabilize essa escola, atualmente, o desafio vem se constituindo, fundamentalmente, na busca e compreensão de experiências que já foram realizadas em outros tempos e contextos sociais, tais como a educação socialista, no período revolucionário de 1917-1930, na Rússia, tendo presente, todavia, que a primeira experiência que ousou contrariar a escola capitalista, se desenvolveu em um contexto social bem distinto do atual. Ao estudá-la e compreendê-la, nosso maior desafio hoje, se constitui, basicamente, em exercitar alguns aspectos desta escola, tendo presente a realidade atual capitalista em que nos encontramos – onde se desenvolve a Itinerante - sem previsibilidade, a curto e médio prazo de mudança estrutural.
É nesta perspectiva que já exercitamos, no interior da Escola Itinerante, espaços de auto-organização dos estudantes, levantamento, pesquisa e sistematização das questões do seu entorno, além de avançarmos na compreensão e na construção processual dos Complexos de Estudo já experimentados pela escola russa. Neste sentido e na direção que vai essa escola, se torna necessário e imprescindível pensar um projeto de formação dos educadores que lhe dê condições de acompanhar e analisar as lutas em que se insere a escola, além de refletir e sistematizar a pedagogia que se constrói na itinerância. Nosso entendimento é que o acompanhamento pedagógico aos educadores é um esforço que precisamos fazer, tendo em vista a escola que queremos construir, conectada com o projeto social da classe trabalhadora. Conforme Freitas, 2011, “forma-se o educador segundo a forma escolar que se tem em vista, uma forma escolar que lhe sirva de horizonte”.
Perspectiva social
Por fim, temos presente que a construção dessa escola é tarefa dos trabalhadores Sem Terra, principalmente pela sua importância no processo educativo e formativo da referida classe. Todavia, não é qualquer escola, mas sim uma escola que seja capaz de acompanhar sua perspectiva social. Por isso mesmo, se faz necessário começar sua projeção e construção, neste momento, sem esperar pela transformação social, pela qual lutamos e acreditamos que venha ocorrer.
O desafio, pois, é ir fazendo a ocupaçãoda escola, e a partir dela e de dentro dela, pensar a escola dos trabalhadores, tendo presente que não será tarefa simples, mexer com a instituição escolar - uma construção social e histórica, conservadora, e colocá-la em nossa direção, pois a forma escolar usual é a referência mais conhecida, se não a única, aceita sem questionamentos pela maioria das pessoas.
Que todas as interrogações, lições e aprendizados extraídos nestes 15 anos de Escola Itinerante, sejam um incentivo e provocação para denunciarmos que “fechar escola é crime”, além de um grande retrocesso, especialmente no campo; determinação para continuarmos a luta pela transformação da escola, sem esquecer, todavia, que esta transformação nos custará muito trabalho e dedicação, principalmente porque enquanto não houver uma transformação social, estaremos todos os dias, remando contra a maré, contra o projeto hegemônico da escola capitalista.
Por fim, o que deve fortalecer nossa luta é a tripulação com quem comungamos nossos projetos, a pressa para construí-los, e a direção em que remamos.
Isabela Camini é mestre e doutora em Educação pela UFRGS, pesquisadora da Escola Itinerante, autora do livro: "Escola Itinerante: na fronteira de uma nova escola", São Paulo, Expressão Popular, 2009.
Por Isabela Camini
"Os poderosos não temem os pobres, temem os pobres que pensam. As escolas do MST ensinam os estudantes a pensar e, por isso, são condenadas e proibidas. Esta condenação apenas vem confirmar o fato de que os que não amam a democracia querem o povo ignorante para poder continuar a tratá-lo como massa de manobra e impedir que busque seus direitos e viva sua cidadania" (Eduardo Galeano).
Comemorar 15 anos de existência da Escola Itinerante dos acampamentos do MST - uma experiência escolar pública, estadual, itinerante, que se pretende contra-hegemônica à existente escola capitalista, pode-se considerar um avanço importante para os movimentos sociais do campo, de modo especial para o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, cuja luta pela Reforma Agrária, em toda a sua história, é entrecruzada com a luta pela educação e escola.
Frente às inúmeras criações e invenções no campo da educação, com pouco êxito e sustentação, nos últimos anos, seja pela fragilidade da proposta ou falta de convicção e projeto social de seus propositores, se torna necessário que o MST faça uma reflexão acerca das experiências escolares itinerantes, desenvolvidas no decorrer de 15 anos da Escola Itinerante, reconhecida e aprovada pela primeira vez (1996), no estado do Rio Grande do Sul. Salientamos que neste período, esta experiência se expandiu para outras regiões do país, forjando o Movimento a voltar seu olhar, com mais afinco, para a escola e para a formação de educadores, na perspectiva da classe trabalhadora. Vale destacar também as inúmeras pesquisas e sistematizações, realizadas neste período, que referenciam, de modo especial, a Escola Itinerante organizada e desenvolvida nos acampamentos do MST do Rio Grande do Sul e Paraná, como um projeto de escola próximo à Pedagogia do Movimento, conectada com a vida e com as práticas sociais que a cercam.
Para lembrar, atualmente a forma escolar itinerante encontra-se aprovada em seis estados: Rio Grande do Sul (1996), Paraná (2003), Santa Catarina (2004), Goiás (2005), Alagoas (2005) e Piauí (2008). Porém, em Goiás a experiência foi desenvolvida durante apenas dois anos, e no Rio Grande do Sul suas atividades foram interrompidas pelo TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) firmado entre Secretaria de Estado da Educação e Ministério Público do RS, no final do ano de 2008, essa questão será abordada mais adiante.
É, portanto, sobre algumas lições e aprendizados obtidos com a Escola Itinerante, construída, praticamente, em cenários de conflitos: tensões, contradições e dificuldades que queremos refletir neste pequeno texto. Todavia, temos presente à impossibilidade de tratarmos, brevemente, aspectos importantes desta experiência, dada sua singularidade em cada acampamento, marchas, despejos, e outros espaços, nos quais esta escola se fez presente pelo período e/ou tempo exigidos pelas mobilizações das famílias acampadas. Situações essas, impostas pela morosidade no que tange às questões relacionadas ao projeto de Reforma Agrária proposto pelos trabalhadores.
Rememorando a história
Para melhor entendimento de nossa reflexão, acerca da Escola Itinerante, reportamo-nos ao tempo e à memória, trazendo presente dois fatos/acontecimentos, expressos com particularidades diferentes, mas que marcaram a história do MST, ocorridos em um dos períodos mais férteis de expansão do Movimento para outras regiões (1990), os quais são expressos com particularidades diferentes. Para entender a relação que estabelecem entre si e o sentimento que provocam nos militantes, a cada ano que passa, esses acontecimentos serão identificados pela ordem cronológica.
Em abril de 1996, o Massacre do Eldorado dos Carajás, no Pará, com dezenove trabalhadores sem terra, assassinados.
Em novembro do mesmo ano, aprovação da proposta de Escola Itinerante dos acampamentos do MST no Rio Grande do Sul, Estado pioneiro em reconhecer a trajetória e a experiência de escola que vinha sendo delineada e construída como projeto, para o atendimento às crianças e adolescentes em situação de acampamento, desde as primeiras ocupações de terras improdutivas no estado, na década de mil novecentos e oitenta.
Embora o primeiro fato, que indignou o mundo pela sua crueldade, tenha ocorrido no mês de abril, em uma ponta do país - na região Norte, e o segundo, um acontecimento que representou um avanço para o projeto educativo do Movimento, ocorrido no mês de novembro, em outra ponta do país - na região Sul, são fatos relacionados entre si, porque ambos aconteceram no interior do Movimento Social, articulado pelos mesmos princípios, em vinte e quatro estados da Federação. Portanto, os acontecimentos do MST no RS, no Pará, ou noutro estado, repercutem imediatamente na Organização em nível nacional. Sendo assim, tanto o massacre sangrento dos dezenove sem-terra no Pará, quanto à criação da Escola Itinerante no Rio Grande do Sul, respeitadas suas particularidades, são acontecimentos que marcaram o calendário de lutas do MST lembrados de maneira especial nos meses de abril e novembro de cada ano. Seguramente, pela sua repercussão e significado, esses dois fatos continuam irradiando seus efeitos 15 anos depois.
Criação em 1996
Em relação ao Massacre de Eldorado dos Carajás assistimos a cada ano, na agenda de lutas batizada de Abril Vermelho, em várias regiões do país, inúmeras manifestações, ocupações e celebrações visando manter viva a memória daqueles companheiros que tombaram pela mão do poder opressor do capital. Essas manifestações intencionam relembrar à sociedade o crime cometido pelo Estado burguês contra a vida dos trabalhadores do campo, denunciar a não realização da Reforma Agrária e, ao mesmo tempo, preservar a memória de fatos que marcaram a época, e que ainda sangram nas veias do MST, por ver a impunidade dos culpados.
O segundo fato anunciado, o qual se constitui a razão fundamental deste pequeno texto, se relaciona com a Escola Itinerante dos acampamentos do MST, criada em 19 de novembro de 1996, no estado do Rio Grande do Sul, e, em seguida, expandida para outras regiões do país onde o MST está organizado.
Assim, como o primeiro fato, que continua a indignar até hoje, merecedor de denúncia permanente, o segundo, também é destacado com comemorações alusivas a data de 19 de novembro, de cada ano, de modo especial nos estados e comunidades acampadas, onde a escola pública está sendo recriada/reinventada - em sua forma e conteúdo, denominada de Escola Itinerante.
Entre tantos fatos marcantes, na história da luta pela terra encampada pelo MST, na década de 1980 até nossos dias, os dois fatos que anunciamos acima, motivam e renovam, a cada ano, a vivência de uma mística que neutraliza os ídolos do egoísmo, que recoloca a necessidade de lutar e construir ao mesmo tempo, capaz de mexer com a alma dos militantes.
Como se pode observar, a contradição é visível, pois o Estado burguês que matava trabalhadores sem terra, acampados no Pará, ao mesmo tempo aprovava o direito de crianças em iguais condições frequentarem a escola pública estadual, no sul do país.
Fechamento no RS
Embora nosso texto não queira centrar o foco no Termo de Ajuste de Conduta - TAC, firmado entre Secretaria de Estado da Educação e Ministério Público do RS, no final do ano de 2008, o qual determinou o fechamento das sete escolas itinerantes dos acampamentos do MST do RS, deixando sem escola, em torno de 600 crianças e adolescentes, obrigando-as a estudarem em escolas urbanas, é importante fazer uma pequena memória do ocorrido, uma vez que, até o momento, dois anos e meio após o ocorrido, as atividades escolares itinerantes ainda não foram retomadas.
Em consequência desse fato, no início do ano letivo de 2009, inúmeras mobilizações foram realizadas, pelo MST e seus apoiadores, do campo e da cidade, na direção de retomá-las. No entanto, governo e Ministério Público mantiveram-se inertes e indiferentes à voz e as manifestações da sociedade civil que se via no direito de lutar e exigir que o governo e Ministério Público revissem suas decisões. Todavia, as vezes que se manifestaram foi no sentido de reafirmar a intransigente decisão da não reabertura das mesmas, alegando que os conteúdos escolares veiculados na Escola Itinerante eram de cunho ideológico. Ignorando o drama das famílias acampadas, obrigadas a separar-se dos filhos em idade escolar, Governo e Ministério Público se limitaram a pressioná-las para que buscassem vagas em escolas da rede pública, estadual ou municipal, localizadas próximas dos acampamentos. No entanto, esta procura só foi feita mediante pressão e ameaça da brigada militar e oficiais de justiça junto aos acampados. Surpreendentemente, essas instituições visitaram as comunidades acampadas a fim de fiscalizar se havia alguma criança não matriculada nas escolas indicadas. No entanto, se negaram a informar que em alguns casos, a escola mais próxima se encontrava há 30 ou até 50 km, distante. Ou seja, aqueles educandos que encontraram vagas e se submeteram ao transporte escolar para chegarem à escola, tiveram de enfrentar muitas horas de viagem, além de conviver com o preconceito por serem “sem terra”.
Como é do conhecimento de muitas pessoas, porque o debate à época foi polêmico e veiculado pela imprensa, relembramos que a decisão do fechamento das sete escolas itinerantes, pelos mesmos órgãos públicos que deveriam assegurar o direito, em vez de violá-lo, levou inúmeros educandos à reprovação, à perda do ano letivo, e, consequentemente, ao fracasso escolar. Curiosamente e estranhamente a Secretaria de Estado da Educação, em vez de resolver o problema baseado no princípio do diálogo, buscou solucioná-lo da forma mais violenta e truculenta possível, apoiando-se no efetivo da brigada militar, uma instituição que tem outras funções sociais. Desse modo, confirmam-se as inúmeras críticas já conhecidas ao sistema escolar vigente, sempre muito preocupado com o acesso das crianças à escola, porém, deixando em segundo plano a preocupação com a permanência e qualidade do ensino nas escolas onde estudam os filhos dos trabalhadores, especialmente nas escolas do campo. É dessa forma que a Escola Itinerante, solução encontrada ainda no ano de 1996, no Rio Grande do Sul, para atender as crianças e adolescentes nos acampamentos, tem suas atividades escolares proibidas doze anos depois, sem diálogo e sem consentimento do Movimento Social que conquistou essa escola, como solução viável para manter os filhos próximos aos pais enquanto lutam pela terra. Portanto, se constituiu um ato autoritário e prejudicial, em grande medida, para as famílias Sem Terra. Em outras palavras, podemos dizer que este foi mais um ato, contra os direitos humanos de um povo, já desprovido de outros direitos, pela sua humanidade roubada, há tempo, pelo sistema capitalista.
Dignidade
Todavia, no que pese a importância desta Organização e o sonho que alimenta seu projeto social, este povo tenta de todas as formas reencontrar sua dignidade, esperança e sentido, participando da luta pela terra, vivendo nos acampamentos e mobilizando-se com eles, sem descuidar da escola para seus filhos.
Neste momento, praticamente três anos deste ocorrido, o referido termo (TAC) está sendo questionado e considerado sem valor legal pelo atual governo do estado.
Em face deste novo cenário, sem visualizar a solução do problema em curto e médio prazo, algumas perguntas se fazem necessárias: Porque esta escola foi fechada e negada como direito do povo e dever do Estado? Qual a responsabilidade cabível ao Estado, no que se refere aos prejuízos causados para as crianças e adolescentes Sem Terra, durante quase três anos em que a Escola Itinerante se encontra proibida de desenvolver atividades escolares? O governo de Yeda Crucius, à frente deste Estado, no período de 2007-2010, não será responsabilizado por isso?
Como integrante na luta pela Escola Itinerante do MST, e pesquisadora nesta área, tenho contribuído, ao longo dos 15 anos, no processo de construção e elaboração de sua proposta educativa, fundamentalmente pelo papel social que a escola desempenhou e desempenha ao tornar-se referência, expandindo-se para outros estados da federação. Temos presente que, à medida que fomos recriando a escola e construindo a Itinerante com uma forma escolar diferente, ela tem nos provocado a pensar uma outra escola nos assentamentos. Talvez, por isso, ela tenha sido tão questionada por parte do Sistema, ao mesmo tempo, elogiada por aqueles que acreditam nesta possibilidade.
Educação básica
Ainda nesta parte, é importante salientar que a Escola Itinerante dos acampamentos, mesmo tendo sido reconhecida pelos órgãos públicos somente em 1996, é uma retomada das primeiras experiências educativas iniciadas na década de 1980, no Estado do Rio Grande do Sul, que foi pioneiro em reconhecer a Escola Itinerante como pública estadual, e também, pioneiro em interromper e proibir as atividades da mesma.
Faz-se necessário mencionar e destacar, neste texto, que no Paraná, o segundo Estado a reconhecer a Escola Itinerante (2003), tomando por base a experiência em desenvolvimento no RS, gradativamente foi ampliando a experiência da Escola Itinerante para o conjunto da Educação Básica, ou seja, hoje, mantém escolas itinerantes de ensino fundamental e ensino médio, organizadas em várias comunidades acampadas, evitando problemas de reprovação, ou ainda, a perda do ano letivo para muitos Sem Terra. Todavia, este avanço e compreensão da necessidade de uma escola alternativa, itinerante, viável para a condição em que vivem os Sem Terra no Paraná, não resultam do simples fato do Estado Burguês empenhar seus esforços e acreditar neste projeto, mesmo que em alguns casos tenha sido parceiro, especialmente no apoio aos processos de sistematização e divulgação da proposta de Escola Itinerante no período de 2007 - 2010. Esse avanço, sem dúvida, é fruto do enfrentamento das contradições e dificuldades nas relações entre Movimento Sem Terra e Estado, que, independente do apoio ou não do poder público, continua sua luta pelo direito à escola e sua transformação, propondo e construindo pouco a pouco, a nova escola, mesclando o ensino com a vida.
Ajustamento
Neste sentido, tem-se a clareza dos limites e dificuldades que teremos que enfrentar, enquanto Organização Social, na tentativa de contrariar o projeto hegemônico de escola. Mesmo assim, existe a certeza que valerá a pena assegurá-la nos acampamentos, fazendo de tudo para que a escola dos sem terra não tenha um retrocesso e volte ao leito e a vocação para a qual a instituição escolar foi organizada e assegurada historicamente, a serviço dos interesses e ideais das classes dominantes no decorrer dos últimos séculos.
Como acabamos de ver, o fato da referida experiência de escola do RS ter sido motivadora e incentivadora para a criação de escolas itinerantes no Paraná, em Santa Catarina, em Goiás, no Piauí e em Alagoas, e de ter motivado inúmeras pesquisas acadêmicas e processos de sistematização, que tornaram conhecida a Escola itinerante dos Sem Terra, não foi determinante para a abertura de diálogo que pudesse reverter o TAC. Cabe destacar que, enquanto as escolas itinerantes do RS se encontram fechadas há mais de dois anos, em outros estados, essa forma escolar continua sendo a solução adequada e viável para o atendimento dos filhos das famílias que vivem em condições de itinerância na luta pela Reforma Agrária.
Embora nosso texto tenha por objetivo principal tratar das lições e aprendizados obtidosnos espaços das escolas itinerantes, comemorando sua existência há 15 anos nos acampamentos do MST, não seria justo deixar de mencionar, e mais uma vez, denunciar, a intransigente decisão tomada pelo Estado do Rio Grande do Sul, de negar o direito à educação às famílias Sem Terra. Também, é oportuno dizer que mesmo a Escola Itinerante almejando êxito por se constituir um contraponto à escola convencional, por estar inserida em uma realidade em que as práticas sociais são latentes, tal qual um acampamento, uma marcha, conforme comprovado em tese, não se tornaria conhecida, estudada e debatida, senão tivesse sido impedido seu funcionamento, no final de 2008.
Retrocesso
Contudo, entende-se que esta foiuma decisão, a princípio, profundamente contraditória e autoritária, pois desrespeitou o direito das famílias acampadas, de manterem seus filhos próximos a elas, situação, essa, favorecida quando do reconhecimento da Escola Itinerante na itinerância dos acampamentos, em 19 de novembro de 1996, pelo Conselho Estadual de Educação e Secretaria de Educação, em um governo pouco progressista do PMDB. Esse foi um ato de governo, considerado à época, sensível às causas pelas quais o povo lutava, entra elas, o direito a uma educação alternativa, podendo organizar e recriar a escola em locais distantes onde se encontra o povo em luta. Entretanto, após doze anos do desenvolvimento desta experiência, vem outro ato de governo, retrocedendo o anterior, determinando o fechamento e a proibição desta Escola.
Concluindo esta breve reflexão sobre o fechamento da EI, trazemos novamente Eduardo Galeano, porque ele sintetiza o pensamento dos trabalhadores: “Os poderosos não temem os pobres, temem os pobres que pensam. As escolas do MST ensinam os estudantes a pensar e por isso são condenadas e proibidas...”.
Perspectiva e tarefa atual
Hoje, analisando a trajetória desta escola, contabilizando-se todos os desafios enfrentados percebe-se o quanto a Escola Itinerante tem representado para o Movimento, sobretudo, pelas provocações e interrogações que vem lhe fazendo, no decorrer de 15 anos. Também, pelo trabalho e dedicação exigidos das comunidades, que lutam por mantê-la em suas áreas, por exemplo, frente a um despejo do acampamento, frente a um vendaval que destrói sua estrutura física, e/ou frente ao inesquecível acontecimento da queima da Escola Itinerante Dandara, pelo efetivo da brigada militar, no acampamento Sepé Tiarajú, Fazenda Guerra, município de Coqueiros do Sul em 2006, entre outros.
Aqui, poderíamos trazer inúmeros exemplos que indignaram e mobilizaram as comunidades acampadas na construção e em defesa dessa escola. Sabe-se, porém, que a Escola Itinerante, para essas comunidades, teve e terá sempre um novo sentido, à medida que se mantém conectada à vida e as práticas sociais dos sujeitos engajados na luta por outro projeto social. Sendo assim, a escola neste contexto não teria sentido e viabilidade em outro espaço. Portanto, a presença da escola nestes espaços terá que ser na perspectiva da intencionalidade formativa do projeto social que este povo tem como horizonte. Neste sentido, relembramos o que foi dito acima. Ao ser fechada a Escola Itinerante no RS, acusada de ser ideológica, a classe dominante tenta negar que toda a instituição escolar é ideológica, porém, de forma não explicitada. Sabemos que por ser itinerante imersa na luta social, a Escola Itinerante explicita sua não neutralidade, frente à luta social latente e as condições de vida extremadas que vivem os Sem Terra.
O Movimento, enquanto Organização social, não tem dúvida do papel que a Escola Itinerante assumiu ao longo de 15 anos.
Nasdiversas escolas organizadas nos acampamentos, denominadas com nomes de lutadores do povo, tais como: Che Guevara, Olga Benário, Zumbí dos Palmares, Oziel Alves, Paulo Freire, e outros, escolarizaram-se centenas de crianças, adolescentes e jovens que puderam continuar seus estudos no ensino médio e superior, além de contribuir e forjar este Movimento a mover-se na direção do cuidado com o conjunto da escola, seja de acampamento ou de assentamento. Neste sentido, Alessandro Mariano, do setor de educação do MST do Paraná, nos revela algo bem importante: “A Escola Itinerante do MST, criada em 2003, no estado do Paraná, nos obrigou a olhar para a escola do MST”.
Referência
Sendo assim, a Escola Itinerante, embora ainda longe de ser a escola que os trabalhadores do campo buscam, torna-se referência de escola para os filhos dos acampados, dando-lhes a oportunidade de estudar enquanto lutam, sendo agente-fermento, contribuindo na formação desses lutadores sociais, de acordo com a realidade de cada região onde está inserida. Essa Escola, e sempre provocada para ser diferente econtrariar o projeto de escola hegemônica, continua a refazer-se em acampamentos dos Sem Serra do Paraná, Santa Catarina, Alagoas e Piauí, como “semente que se espalha e cresce com vigor”, conforme depoimento de Pedro Tierra, ao perceber a presença de inúmeras crianças e adolescentes, em idade escolar, no acampamento de Eldorado dos Carajás, logo após o massacre dos dezenove sem terra, em 1996.
Portadora de uma experiência singular, a escola da qual estamos falando, é itinerante, mesmo que possa parecer estranho aos olhos de muitas pessoas, incapazes de admitir uma forma escolar diferente daquela escola, geralmente cercada pelas grades e localizada, fisicamente, distante da vida daquelas pessoas que a frequentam.
É itinerante porque inserida no meio social que a conquistou, a mantêm viva sob a orientação da Pedagogia do Movimento. É itinerante por sua natureza. E é de sua natureza não fechar-se sobre si mesma, ignorando a realidade que a cerca, ou visitando-a de vez e outra, sem importar-se com ela ao retornar à sala de aula e ao retomar o currículo pré-estabelecido, exigido e imposto pelo Sistema. É de sua natureza manter-se aberta para a vida, sem, contudo sentir-se aprisionada pelas estruturas físicas que a impedem de mobilizar-se, à medida da necessidade da luta. É itinerante porque construiu uma organização coletiva que a permite caminhar em movimento, sem aprisionar-se a um único lugar - sala de aula, considerado pela escola convencional, quase único e imprescindível espaço favorável para aprender. Por isso, a Itinerante, ao mesmo tempo em que assusta, despertando debates acerca dela, também aponta a possibilidade de outro jeito de escola.
Sendo assim, torna-se difícil e complexo descrever o que significou a conquista do direito de estudar nos acampamentos, a presença desta forma escolar num espaço de permanentes lutas e contradições, além de todo o trabalho realizado no sentido de transformar esta escola no decorrer de quinze anos. Nossa pretensão aqui é apenas fazer memória e levar o leitor a refletir sobre alguns fatos que marcaram a sua trajetória.
Desafio
Herdeira das primeiras iniciativas educativas do Movimento, a Escola Itinerante, por pretender-se diferente da escola burguesa, tem se tornado um desafio permanente para o MST, pois é um projeto a ser construído passo a passo, com persistência, tendo em vista as reais circunstâncias físicas e conjunturais onde ela precisa ser construída, desfeita e reconstruída novamente, dependendo da mobilização, ocupação ou um despejo. Neste sentido, precisamos destacar o trabalho incansável dos coletivos de educadores e comunidades acampadas, onde existe ou já existiu alguma escola itinerante, no sentido de não reproduzirem nesse espaço escolar, a forma escolar hegemônica, da qual, a classe trabalhadora precisa se libertar, à medida que se empenha para construir a sua escola, buscando conhecer as experiências educativas bem sucedidas de outros países, mesmo que em tempos e contextos distintos.
Construída com muito trabalho, identidade e mística, a Escola Itinerante do MST, sempre foi uma interrogação para o Movimento, porque desde o início ela não poderia atrapalhar e impedir as mobilizações, próprias do movimento pela Reforma Agrária. Por isso, buscououtra forma deorganização, capaz de acompanhar a luta, sem prejuízo de dias letivos. Portanto, a forma escolar itinerante deu conta deste objetivo.
Experiências
Entre muitos debates e estudos realizados para encontrar o caminho que viabilize essa escola, atualmente, o desafio vem se constituindo, fundamentalmente, na busca e compreensão de experiências que já foram realizadas em outros tempos e contextos sociais, tais como a educação socialista, no período revolucionário de 1917-1930, na Rússia, tendo presente, todavia, que a primeira experiência que ousou contrariar a escola capitalista, se desenvolveu em um contexto social bem distinto do atual. Ao estudá-la e compreendê-la, nosso maior desafio hoje, se constitui, basicamente, em exercitar alguns aspectos desta escola, tendo presente a realidade atual capitalista em que nos encontramos – onde se desenvolve a Itinerante - sem previsibilidade, a curto e médio prazo de mudança estrutural.
É nesta perspectiva que já exercitamos, no interior da Escola Itinerante, espaços de auto-organização dos estudantes, levantamento, pesquisa e sistematização das questões do seu entorno, além de avançarmos na compreensão e na construção processual dos Complexos de Estudo já experimentados pela escola russa. Neste sentido e na direção que vai essa escola, se torna necessário e imprescindível pensar um projeto de formação dos educadores que lhe dê condições de acompanhar e analisar as lutas em que se insere a escola, além de refletir e sistematizar a pedagogia que se constrói na itinerância. Nosso entendimento é que o acompanhamento pedagógico aos educadores é um esforço que precisamos fazer, tendo em vista a escola que queremos construir, conectada com o projeto social da classe trabalhadora. Conforme Freitas, 2011, “forma-se o educador segundo a forma escolar que se tem em vista, uma forma escolar que lhe sirva de horizonte”.
Perspectiva social
Por fim, temos presente que a construção dessa escola é tarefa dos trabalhadores Sem Terra, principalmente pela sua importância no processo educativo e formativo da referida classe. Todavia, não é qualquer escola, mas sim uma escola que seja capaz de acompanhar sua perspectiva social. Por isso mesmo, se faz necessário começar sua projeção e construção, neste momento, sem esperar pela transformação social, pela qual lutamos e acreditamos que venha ocorrer.
O desafio, pois, é ir fazendo a ocupaçãoda escola, e a partir dela e de dentro dela, pensar a escola dos trabalhadores, tendo presente que não será tarefa simples, mexer com a instituição escolar - uma construção social e histórica, conservadora, e colocá-la em nossa direção, pois a forma escolar usual é a referência mais conhecida, se não a única, aceita sem questionamentos pela maioria das pessoas.
Que todas as interrogações, lições e aprendizados extraídos nestes 15 anos de Escola Itinerante, sejam um incentivo e provocação para denunciarmos que “fechar escola é crime”, além de um grande retrocesso, especialmente no campo; determinação para continuarmos a luta pela transformação da escola, sem esquecer, todavia, que esta transformação nos custará muito trabalho e dedicação, principalmente porque enquanto não houver uma transformação social, estaremos todos os dias, remando contra a maré, contra o projeto hegemônico da escola capitalista.
Por fim, o que deve fortalecer nossa luta é a tripulação com quem comungamos nossos projetos, a pressa para construí-los, e a direção em que remamos.
Isabela Camini é mestre e doutora em Educação pela UFRGS, pesquisadora da Escola Itinerante, autora do livro: "Escola Itinerante: na fronteira de uma nova escola", São Paulo, Expressão Popular, 2009.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Para filosofar e poetizar: "Outra moça de Sari Vermelho"
Que possamos, entre filosofar e poetizar, um dia entende-la...
Outra moça de sari vermelho
...)
Apareceu então uma jovem morena, vestida de vermelho, com grandes brincos. Os dois deuses, agachados no chão, observavam-na. Então Brahmā falou: “Mrtyu, Morte, venha cá. Deve rodar o mundo. Deve matar minhas criaturas, os sábios e os tolos. Deve obedecer apenas a uma regra: que não haja exceção”. A moça olhava o deus em silêncio, enquanto atormentava com os dedos uma guirlanda de lótus. Depois disse:” Pai, por que me escolheu para fazer aquilo que é contra todas as leis? E por que deverei fazer apenas isso? Eu queimarei sobre uma perene pira de lágrimas”. Brahmā disse:” Não tergiversa. Você é sem mácula e impecável é o seu corpo. “Vá...”. Morte continuou silenciosa diante de Brahmā, enquanto suas costas lentamente se curvavam.
Morte era teimosa e não aceitou logo a ordem de Brahmā. Em Dhenuka, cercada por ascetas que já devia ter exterminado ficou sobre um só pé durante quinze milhões de anos. Ninguém lhe falava. Era uma das tantas que ali se retiravam. Mrtyu meditava, perplexa.
Brahmā convocou-a ao dever. Mas Morte apenas mudou o pé sobre o qual se apoiava — e assim continuou a meditar por mais vinte milhões de anos. Por alguns outros milhões de anos viveu depois com os animais selvagens, comeu apenas ar, mergulhou nas águas. Depois, sobre o monte Meru, jazeu longamente como um tronco. Passaram-se outros milhões de anos. Brahmā foi visitá-la: "Minha filha, o que acontece agora? Consumir poucos átimos ou alguns milhares de anos não muda nada. Um dia sempre acabaremos nos encontrando. E eu repetirei: ‘Faça o seu dever’ ". Como se não se tivessem passado aqueles milhões de anos e estivesse retomando o diálogo com o pai depois de uma pausa, Mrtyu disse: "Tenho medo de ir contra a lei". "Não tema", disse Brahmā, "nenhum juiz jamais conseguirá ser tão imparcial quanto você. E nem é o caso de você chorar tanto, como a vi chorando: suas lágrimas abrirão chagas nos corpos que deve exterminar. Melhor matar sem muita demora." Então Morte baixou o olhar e em silêncio percorreu o mundo. Tentava manter os cílios enxutos, como último sinal de benevolência com as criaturas que abatia.
(...)
Roberto Calasso, em 'KA'
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
segunda-feira, 25 de julho de 2011
sábado, 11 de junho de 2011
Nossas mulheres indígenas
Mulheres da floresta
Por Patricia Schleumer
Uma mulher de longos cabelos negros acompanha a filha que acaba de menstruar até a beira do rio para um ritual de passagem. São índias da etnia Arara Shawãdawa, uma aldeia situada nas entranhas da Floresta Amazônica, no Acre.
Em sua primeira menstruação, as jovens aprendem que devem devolver esse sangue para a Terra e para a água, a fim de reverenciar a sintonia dos seus ciclos com a natureza. Diz a sabedoria da floresta que, dessa forma, elas ficam protegidas de cólicas e garantem um bom parto.
As índias usam um pano – como os absorventes ecológicos ainda pouco usados pelas mulheres da cidade – e durante os seus ciclos lavam o pano no rio: “A índia primeiro oferece o sangue para a Terra e depois devolve o resto para a água, onde ela lava o pano e guarda para usar sempre que menstruar. Meu avô, que foi pajé, falava que a mulher não pode usar nada a não ser um pano limpo, de algodão, para ser saudável e não pegar uma inflamação ou uma doença no útero”, explica dona Francisca das Chagas, parteira, com experiência em mais de mil partos naturais na sua aldeia e em vários locais do Brasil.
Dona Francisca é uma das representantes brasileiras que participa das atividades do Conselho Internacional das Treze Avós Indígenas, organizado pela ONU, que reúne anciãs de várias etnias indígenas para trocar experiências e preservar as tradições de seus povos. Elas se declaram representantes de uma aliança de prece, educação e cura para a Mãe Terra, para todos seus habitantes e para as próximas sete gerações.
Dona Francisquinha, como é mais conhecida, mãe de 12 filhos e avó de 13 netos, também nasceu em uma família grande, com doze irmãos:
– O mais velho foi o Manuel, depois veio a Nair, depois a Nedina, depois o Francisco, depois o Nalésio, o Raimundo, aí veio a …”
Ela para para lembrar e percebemos, rindo, que finalmente era ela: a Francisca, nascida pelas mãos da tia da mãe e do próprio pai que era parteiro e pajé.
O pajé é o conselheiro e o curandeiro da aldeia. Ele aprende com o pai, que aprendeu com o avô etc., seguindo uma tradição oral que passa ensinamentos como a medicina da floresta, de geração em geração. Com um tom de voz calmo e olhar sereno, sem a pressa que costumamos ter nas grandes cidades, ela explica:
– O pajé sabe tudo, das coisas da matéria e, principalmente, do espírito. Ele conversa e fala o que você precisa ouvir, é muito sábio. A mulher ou filha do pajé também sabe muito. Eu aprendi muito com meu pai e minha mãe, que também era parteira; quando tinha um parto na aldeia, minha mãe dizia que não era bom me levar, porque a cena era muito forte.
E meu pai respondia: “Não, ela tem de ir porque ela tem de aprender, ela vai ser parteira, não tem nada forte para minha filha, ela vai aprender tudo.”
Desde pequena ouço meu pai dizer: “Minha filha, você deve ter amor por você; se você tem amor por você, você tem amor pela humanidade.”
E a profecia do pajé se cumpriu. Além de dona Francisca ter se tornado uma parteira conhecida e requisitada fora dos limites de sua aldeia, ela também se tornou uma das guardiãs da cultura e da sabedoria de seus ancestrais.
Vivendo no ritmo da própria natureza
Muitas mulheres da cidade procuram dona Francisca para tratamentos de saúde ou para se prepararem para o parto. Seus remédios são feitos com as plantas, raízes, folhas e flores da floresta amazônica.
Perguntei o que ela achava sobre a dificuldade que muitas mulheres têm para engravidar ou para parir naturalmente; ela me disse:
– As mulheres que vivem na cidade trabalham muito para pagar contas e perdem a tranquilidade e o amor de dentro delas. Elas pensam em ganhar mais dinheiro e o tempo passa; quando param e querem filhos com a idade avançada, fica mais difícil.
Diante da simplicidade de sua sabedoria, concluo que o estresse da mulher urbana a desconecta de sua própria natureza e essência feminina, dificultando a possibilidade de uma gravidez e pergunto sobre como é o ritmo de trabalho das índias:
– Na aldeia, as índias também trabalham muito na cultura, fazendo remédios, mas elas trabalham vendo o que está acontecendo com os filhos e com elas, com a própria matéria e o espírito porque elas estão pisando na terra, sentindo a Mãe Terra, sentindo a floresta o tempo todo. Elas trabalham muito para plantar, para alimentar os filhos, mas com o sentimento da floresta, com sentimento pela Terra, que significa o amor e a paz.”
Quando a lua nova aparece no céu, as índias se enfeitam, pintam o corpo todo e fazem uma roda em volta de uma fogueira para dançar para lua. É uma folia. Elas cantam chamando todas as mulheres da aldeia para a roda, até as pequenas índias, e celebram os ciclos da vida noite adentro.
Com a benção das estrelas
Se para a maioria das mulheres da cidade todas as informações sobre a gravidez e os preparos para o parto são resolvidos em um consultório médico, para as índias é bem diferente. Na aldeia, elas já crescem assistindo a partos naturais e, logo que engravidam, começam a se preparar para receber seu filho. As massagens com óleos para abrir o quadril começam a partir dos três meses de gravidez; a permanência na postura de cócoras também é praticada desde o início da gestação: “Na aldeia, as mulheres não têm problemas com dilatação ou contração porque lá a mulher se prepara bem antes, logo que engravida ela toma os remédios das plantas da floresta e as parteiras vão ajeitando a criança. Quando chega a hora do trabalho de parto, está tudo certo. As mulheres não têm medo da dor, aprendem a entregar-se a si mesmas, a confiar na natureza e as índias mais velhas explicam desde cedo para as moças como são as contrações e a dilatação”.
Quando uma criança nasce na aldeia, as parteiras cortam o cordão umbilical e enterram a placenta encostada em uma árvore para devolvê-la para a floresta e para a Terra. E na hora que o nenê começa a nascer, a parteira faz uma reza e começa a entoar uma canção para receber a criança. A canção fala da lua, da água, da terra, do fogo e das estrelas e o bebê nasce envolvido em uma benção sagrada que lhe descreve o cenário da sua nova morada.
Patricia Schleumer é jornalista e editora do Materna: www.materna.com.br
Foto: Daniel Zanini H. http://www.flickr.com/photos/zanini/
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sexta-feira, 25 de março de 2011
Mulheres indígenas para sempre
PODER DE MULHER PELA CRIAÇÃO
Enviado em Questão Indígena de GRUMIN | 7 de Março de 2011 @ 15:21
Um presente pra você!
No dia Internacional da mulher, vamos presentear a Humanidade, com um MUIRAQUITÃ, um amuleto verde de proteção à vida eterna da alma humana, aquela que faz algo pelo bem caminhar dos seres humanos!
Mulheres! Não percamos nossas almas! A criação é o nosso poder: Escreva, dance, componha, plante, ame, ore, estude, pinte, cozinhe, capine, palestre, espiritualize-se, defenda a Terra, cuide-se, cuide dos animais, crianças, velhos e velhas, acaricie o mundo, beije as cicatrizes do mundo, cultive relações, cultive os amigos, cultive a família, enfim, SEJA…ESTEJA PRESENTE…!SEJA LUZ!
Eliane Potiguara
Mulheres indígenas
ENCONTRO INDÍGENA LATINOAMERICANO, MÉXICO 18-25 DE MARÇO DE 2011
Enviado em Questão Indígena de GRUMIN | 13 de Março de 2011 @ 19:46
Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 23
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ENCONTRO INDÍGENA LATINOAMERICANO, MÉXICO 18-25 DE MARÇO DE 2011
Por Conceição Ocádiz

Em 20 de março, em Tulacingo, México, realizar-se-á o Primeiro Encontro indígena Latinoamericano dentro das atividades do Equinócio HUAPALCALLI , uma zona arqueológica não declarada de Huapalcalco.
Entidade organizadora: Rede de Organizações da sociedade civil “Redosc Hidalgo84″.
Objetivo:promover articulação entre atores da cultura, líderes indígenas, defensores dos direitos humanos nacionais e internacionais a fim de que trabalhos e acordos desse encontro tenham projeção a nível nacional e internacional. Construir uma agenda indígena de Hidalgo sobre reflexão da nova Lei de Direitos e Cultura para o México. Combater a discriminação racial aos povos indígenas do mundo.
Colaboradores:Conselho pró-difusão da cultura préhispânica, Enlace cidadã de mulheres indígenas de Santa Ana Tzacuala, União Latinoamericana de Escritores Ulade , Culturalcingo (Coordenação: Cristina de la Concha), entre outros.
Participantes: 60 escritores de México, Brasil, Argentina, Chile, El Salvador. Nicarágua, Estados Unidos e Hidalgo.
Do Brasil estará presente a importante escritora indígena ELIANE POTIGUARA.
Maiores detalhes em:http://www.oem.com.mx/elsoldetulancingo/notas/n1984688.htm
DADOS OFERECIDOS POR: Cristina de la Concha
Por Conceição Ocádiz
Em 20 de março, em Tulacingo, México, realizar-se-á o Primeiro Encontro indígena Latinoamericano dentro das atividades do Equinócio HUAPALCALLI , uma zona arqueológica não declarada de Huapalcalco.
Entidade organizadora: Rede de Organizações da sociedade civil “Redosc Hidalgo84″.
Objetivo:promover articulação entre atores da cultura, líderes indígenas, defensores dos direitos humanos nacionais e internacionais a fim de que trabalhos e acordos desse encontro tenham projeção a nível nacional e internacional. Construir uma agenda indígena de Hidalgo sobre reflexão da nova Lei de Direitos e Cultura para o México. Combater a discriminação racial aos povos indígenas do mundo.
Colaboradores:Conselho pró-difusão da cultura préhispânica, Enlace cidadã de mulheres indígenas de Santa Ana Tzacuala, União Latinoamericana de Escritores Ulade , Culturalcingo (Coordenação: Cristina de la Concha), entre outros.
Participantes: 60 escritores de México, Brasil, Argentina, Chile, El Salvador. Nicarágua, Estados Unidos e Hidalgo.
Do Brasil estará presente a importante escritora indígena ELIANE POTIGUARA.
Maiores detalhes em:http://www.oem.com.mx/elsoldetulancingo/notas/n1984688.htm
DADOS OFERECIDOS POR: Cristina de la Concha
sábado, 1 de janeiro de 2011
Sobre o tempo
Com o meu abraço às minha amigas e aos meus amigos, poemas para o novo tempo e os meus votos para que o novo tempo sempre se faça com ciência e sabedoria, alegria e amor em fraternidade universal.

Mãos Dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Onde o mar e o tempo
Onde o mar, eu flutuo.
Estou acelerado,
então o tempo… recuo.
Onde o mar, eu navego.
Estou consumado,
então o tempo… me nego.
Onde o mar, eu sonho.
Estou fragmentado,
então o tempo… me recomponho
Onde o mar, eu reflito.
Estou amordaçado,
então o tempo… grito.
Onde o mar, eu enjoo.
Estou ancorado,
então o tempo… lanço-me no voo.
Onde o mar, eu naufrago.
Estou desequilibrado,
então o tempo… me embriago
Onde o mar, eu me jogo.
Estou angustiado,
então o tempo… me afogo
Onde o mar, eu afundo.
Estou cansado,
então o tempo… abandono o mundo.
Carlos Couto
Mãos Dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Onde o mar e o tempo
Onde o mar, eu flutuo.
Estou acelerado,
então o tempo… recuo.
Onde o mar, eu navego.
Estou consumado,
então o tempo… me nego.
Onde o mar, eu sonho.
Estou fragmentado,
então o tempo… me recomponho
Onde o mar, eu reflito.
Estou amordaçado,
então o tempo… grito.
Onde o mar, eu enjoo.
Estou ancorado,
então o tempo… lanço-me no voo.
Onde o mar, eu naufrago.
Estou desequilibrado,
então o tempo… me embriago
Onde o mar, eu me jogo.
Estou angustiado,
então o tempo… me afogo
Onde o mar, eu afundo.
Estou cansado,
então o tempo… abandono o mundo.
Carlos Couto
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