quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Indigianidade no Brasil

Publicado em >> Geral


Estou na cidade e continuo sendo Índio
akuntsuanambe
aparaiapinajeapurinaarana
araraarikapu
ashaninkaava-canoeiro
atikumasurini-do-tocantins

Publicado em segunda-feira, 06 de dezembro de 2010

A maioria dos indígenas que vive nas cidades sofreram e sofrem discriminação e preconceito. Em muitos casos o discurso preconceituso vem acompanhado do senso comum, “índios é o que vive na mata, que anda pelado, que não tem veículo automotivo…” enfim, esse fato foi discutino na cidade de Boa Vista através da Organização dos Indígenas da Cidade – ODIC, essa organização está lutando com unhas e dentes para barrar essa margem de preconceito.
O fato a questionar é : os indígenas vieram para a cidade? ou a cidade que chegou para os indígenas ? Por que assim, pois vejamos, a cidade está cercada pelas comunidades Indígenas e nela se encontram aproximadamente 30 mil indígenas. Muitos deles vindo de outros países vizinhos. Segundo o Professor Reginaldo Gomes de Oliveira, da Universidade Federal de Roraima, aqui onde é a atual Cidade de Boa Vista era uma Comunidade Indígena Macuxi, e o nome seria kuwai Krî, que quer dizer Terras de Buritizais. Essa mesma História, se repete nas reuniões da ODIC, e também nos discursos de alguns ãnciões de comunidades do Interior do Estado.
Então Boa Vista foi implantada em cima de uma Comunidade Indígena, e o melhor é uma Comunidade Indígena, e a maior do Estado. Pode ser dizer que a maior aldeia de Roraima é BOa Vista, sem pingo de dúvida. De acordo com a História do não-índio a cidade criou-se a partir de uma Fazenda, o que ao se questionado com alguns anciões de comunidades, eles afirmam que tinha sim uma fazenda, mais não a que se tornou Boa Vista.
O fato de eu está na cidade, usar celular, roupa, calçado, ir para a universidade, passear nas praças, não me tira a identidade indígenas, aliás eu na cidade estou apenas visitando parentes, o que significa que aqui na cidade eu me sinto como na minha comunidade, só que agora aqui é uma comunidade onde se tem vários Povos Indígenas e não Indígenas.
Em observação quero citar qui dois livros que foram lançados pela UFRR em parceria com a Organização dos Índios da Cidade – ODIC:
>Diagnóstico da situação dos Indígenas da Cidade de Boa Vista – Roraima.

>Projeto Kuwai Kîrî: a esperiência Amazônica dos Indíos Urbanos de Boa Vista Roraima.

Esses dois livros trata das questões relativas a situação dos indíos na cidade de Boa Vista. O primeiro, destaca nos discursos dos indígenas o preconceito, a discriminação, o racismo social entre outros com relação aos povos indígenas na Cidade. o Segundo são relatos de membros da ODIC, dos trabalhos desenvolvidos nos baiirros.

Alex Makuxi

Publicado por:
makuxizinho - escreveu 27 matérias no Índios Online.

Graduando em história. Membro do movimentos indígena em Roraima(CIR ,OPIRR, ODIC, APIRR). www.alexmakuxi.blospot.com alex.macuxi@indiosonline.org.br

Mulheres indígenas no atual contexto

Publicado em >> Geral


I SEMINÁRIO DAS MULHERES INDIGENAS SOBRE A LEI MARIA DA PENHA

Publicado em domingo, 28 de novembro de 2010


Esta acontecendo na Aldeia Bahetá pela primeira vez o I Encontro de Mulheres Indígenas para Debater sobre a Lei Maria da Penha.


O Encontro começou no dia 26 e termina no dia 28 do mês de novembro do corrente ano. Esse evento conta com a presença de Daniela da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da Republica, Karina da Funai, Jovanildo Vieira dos Santos Coordenador Técnico Local de Itororó das Aldeias Bahetá e Panelão, Josiane Santana representante da Secretaria de Educação.

As Mulheres Indígenas estão focando a Lei Maria da Penha como ferramenta para buscar seus direitos e torná – lo autentico e respeitado, no primeiro dia foi feito o credenciamento e recepção dos visitantes, logo em seguida o Cacique Akanawan Baênã Hã Hã Hãe tornou oficial o Seminário dando as boa vindas falando da relevância do encontro para as mulheres indígenas da Aldeia Bahetá. Em seguida Dona Maura parabenizou todas as pessoas que acreditaram na realização do evento. As mulheres indígenas consideradas guerreiras pelo Povo Pataxó Hã Hã Hãe se apresentaram falando das expectativas e desafios a serem sanados ao final desse encontro. Depois o Grupo Tyhi Xohã fizeram uma apresentação cultural de boas vindas ao Seminário.

Publicado por:

akanawan -

Publicado em >> Geral


DOCUMENTO FINAL DO SEMINÁRIO DE MULHERES INDIGENAS SOBRE A LEI MARIA DA PENHA NA ALDEIA INDIGENA BAHETÁ NO MUNICIPIO DE ITAJU DO COLÔNIA

Publicado em domingo, 28 de novembro de 2010

União de mulheres indígenas a serviço de um todo

Nós, mulheres indígenas do povo Pataxó Hã Hã Hãe, das aldeias Bahetá e Caramuru, com participação de representantes dos povos Tupinikim e Payayá, nos reunimos na Aldeia Bahetá, no município de Itaju do Colônia, Bahia, entre os dias 26 e 28 de novembro de 2010, para realização do I Seminário de Mulheres Indígenas sobre a Lei Maria da Penha.
No Seminário, homenageamos a Índia Bahetá, da etnia Baenã, que viveu mais de 100 anos e faleceu em 1992, durante uma epidemia de cólera. Ela foi a última falante da nossa língua e um símbolo de resistência das mulheres Pataxó Hã Hã Hãe. Lutou bravamente na defesa dos direitos do povo Pataxó e sempre na conquista do nosso território e resistiu a todas as formas de discriminação, opressão, e nunca se curvou diante do poder econômico daqueles que sempre usurparam as nossas terras, nossa cultura e nossa autodeterminação.
São 28 anos de luta pela reconquista do nosso território, que compreende os municípios de Camacã, Itaju do Colônia e Pau Brasil. Vários dos nossos tiveram suas vidas ceifadas e seu sangue derramado sobre o território almejado, em detrimento da luta. Em face da morosidade do Judiciário brasileiro, intensificam-se os conflitos fundiários e impede-se o desenvolvimento de políticas públicas que visam a autosustentabilidade do povo Pataxó Hã Hã Hãe.
A nossa cultura é de respeito, bater em mulher não é coisa de índio. Repudiamos a violência contra as mulheres, que não é apenas física, mas também se dá por meio de palavras e é agravada pelo alcoolismo. Muitas mulheres sofrem ameaças; alguns homens exigem que elas se dediquem apenas à casa, atendendo a suas vontades e, por ciúme e com medo de que elas passem a concorrer com seu poder, criam dificuldades para que elas estudem, trabalhem e participem do movimento indígena.
Queremos que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades, que as relações sejam baseadas no respeito e companheirismo, e que os homens valorizem e se envolvam na luta das mulheres. As mulheres devem se fortalecer, conhecer seus direitos, as políticas públicas e a legislação direcionadas a elas. No que diz respeito à violência, devemos aprofundar nossos conhecimentos sobre a Lei Maria da Penha e exigir que ela seja cumprida, para que possamos recorrer a ela em situações em que o diálogo e nossos mecanismos de resolução internos não solucionem os conflitos.
Como resultado dos nossos debates e oficinas, apresentamos as seguintes propostas:
• Que no dia 29 de outubro seja comemorada a memória da nossa parente Bahetá.

• Criar uma associação de mulheres da Aldeia Bahetá, visando o desenvolvimento de atividades produtivas, que contribuam para a geração de renda, autonomia das mulheres e fortalecimento da nossa cultura.

• Buscar projetos que visem o desenvolvimento de atividades como: agricultura, produção de artesanato, corte e costura e produção de remédios caseiros.

• Buscar apoio para capacitar as mulheres sobre como organizar associações e escrever projetos, com o intuito de fortalecer a produção das mulheres.

• Envolver as/os jovens nas atividades culturais e produtivas, possibilitando a organização de seminários de jovens indígenas.

• Buscar condições para o envolvimento das/os deficientes nas atividades da aldeia, garantindo-lhes oportunidade de estudo e trabalho.

• Buscar condições para realização de trocas de experiências entre as nossas parentes, valorizando o conhecimento das nossas anciãs e dos nossos anciões, conhecendo as atividades que já são desenvolvidas e as associações de mulheres já existentes.

• Pressionar para que a criação da Coordenação Técnica Local de Itororó (Funai) traga avanços para o povo Pataxó Hã Hã Hãe da Aldeia Bahetá e Panelão.

• Denunciamos os problemas que alguns indígenas vêm sofrendo em relação ao registro civil, muitas vezes não sendo aceito o RANI como documento válido.

• Denunciamos o descaso com a saúde indígena e a falta de saneamento: nossa aldeia sofre com infestação de escorpiões; não dispomos de posto de saúde na aldeia, sendo as consultas realizadas precariamente na escola; não temos tratamento de água e de esgoto. São necessários veículos para atender à comunidade em casos de emergência.

• Denunciamos também os casos de discriminação de indígenas pelo SUS, manifestado na recusa em atender ou no mau atendimento.

• Esperamos que a criação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), no âmbito do Ministério da Saúde, traga melhorias concretas na atenção à saúde indígena. Exigimos que seus funcionários sejam capacitados e que respeitem as/os indígenas, nossa cultura e nossos costumes. O novo órgão deve monitorar a implementação das ações, não deixando a função de fiscalizar a cargo apenas das/os indígenas.

• Demandamos que sejam garantidas condições para o atendimento à saúde, gratuito e com qualidade, com equipamentos e estrutura adequados, exames, medicamentos e vacinas.

• Exigimos especial atenção às necessidades específicas da saúde da mulher, garantindo-se atendimento ginecológico e acompanhamento às gestantes.

• Exigimos que o poder público atenda às necessidade específicas da saúde de nossas anciãs e anciões.

• Demandamos que nossos agentes de saúde indígena sejam valorizados pelo poder público, recebendo condições adequadas de trabalho, e que também se amplie as vagas para agentes de saúde e AISAN.

Que as demandas aqui expostas sejam atendidas, para que a nossa comunidade em um futuro próximo possa assim, junto com os órgãos competentes e parceiros, ter um projeto que torne a vida de nosso povo independente. Tudo o que queremos é nossa autossustentação, pois não queremos que ninguém nos veja como coitados, e sim como pessoas capazes de criar e avançar em nossos objetivos.

Publicado por:

akanawan - escreveu 11 matérias no Índios Online.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Governos e demandas indígenas

22.12.10 - BRASIL



Demandas indígenas não foram priorizadas nos últimos oito anos
Tatiana Félix *

Adital -

As expectativas dos povos indígenas foram mais que frustradas durante os oito anos de governo do presidente Lula. Em linhas gerais, isso é o que atesta Roberto Antonio Liebgott, vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entidade que atua ativamente pela defesa dos direitos dos povos indígenas. Em análise detalhada, são comprovados os poucos avanços e relatadas situações de descaso com a saúde, a educação e a demarcação de terras indígenas.
Rememorando a atuação dos chefes de Estado brasileiros, começando pelo general do Exército João Batista Figueiredo é possível constatar a permanente desatenção a esta parcela da população brasileira. O governo de Figueiredo foi marcado por epidemias e endemias que vitimaram dezenas de povos e quase extinguiram algumas etnias, como os Deni. Os anos de 1979 a 1985 também foram marcados pela construção de estradas e hidrelétricas em terras indígenas.
No governo do presidente José Sarney (1985-1990) o processo de invasões teve continuidade, desta vez, protagonizado por pescadores, madeireiros, garimpeiros e mineradoras. Fui durante esta gestão que, com a ajuda do Governo Federal e da Fundação Nacional do Índio (Funai), mais de 30 mil garimpeiros ocuparam as terras indígenas Yanomami, situação que ocasionou a morte de cerca de 2.000 indígenas em virtude das doenças trazidas pelos invasores.
O sucessor de Sarney, Fernando Collor de Mello (1990 a 1992), promoveu alguns benefícios, como a demarcação das terras Yanomami. No entanto, a iniciativa foi motivada pela pressão em função da realização da ECO 92 no Brasil. Este governo promoveu a homologação de 108 terras indígenas. Após o impeachment de Collor, o Brasil foi governado durante dois anos por Itamar Franco, quem promoveu a homologação, em dois anos, de 20 terras indígenas.
Presidente do Brasil durante oito anos (1994 a 2002), Fernando Henrique Cardoso deu um pouco mais de visibilidade à questão indígena, mas de acordo com Liebgott isso foi feito em virtude de interesses econômicos sobre as terras indígenas. Durante seus dois mandatos FHC homologou 147 terras indígenas.
Com a chegada de Lula à presidência após quatro disputas, as camadas populares e as minorias étnicas se encheram de esperança. No entanto, esse sentimento, sobretudo no que diz respeito aos povos indígenas, foi se esvaindo com o passar dos anos. Isso aconteceu porque demandas prioritárias da agenda indígena não foram levadas em consideração como deveriam durante o governo Lula.
As demarcações não foram priorizadas, prova disso é que apenas 88 terras foram homologadas, sendo que algumas tiveram seus procedimentos iniciados em governos anteriores. Centenas de outros processos de demarcação estão parados.
Segundo Liebgott ‘das 988 terras, 323 ainda encontram-se sem nenhuma providência; 146 estão em estudo, mas ainda a identificar. Quanto às terras em que os procedimentos de demarcação já tiveram início, a situação atual é a que se segue: 20 estão identificadas; 60 estão declaradas; 35 já foram homologadas e 366 encontram-se registradas e, desse modo, com sua demarcação concluída. Existem ainda 36 áreas que foram reservadas aos povos indígenas’.
A violência e a criminalização dos protestos indígenas foram outros pontos negativos que marcaram os últimos oitos anos. Bahia, Pernambuco, Maranhão e Mato Grosso do Sul foram cenário de episódios de violência, despejo e invasões. O caso dos Guarani Kaiowá, que foram despejados de suas terras, perseguidos e obrigados a viveram à beira de uma rodovia, foi considerado um dos episódios mais significativos para provar "a falta de interesse pelos povos indígenas".
A má utilização do orçamento indígena, que não promoveu ações efetivas para a sobrevivência física e cultural dos povos, e a reestruturação da Funai imposta sem consulta aos povos, também foram situações que contrariaram o solicitado pelos 241 povos indígenas do Brasil. No mesmo caminho seguiram as ações voltadas para a saúde e a educação, já que as propostas encaminhadas para os povos foram esquecidas em detrimento das propostas governamentais.
Aos povos indígenas e organizações que defendem os direitos destes só resta intensificar a luta. Os desafios que se configuram para o próximo ano não são desconhecidos. ‘Apresentar demandas, mobilizar-se em torno delas para que se transformem em políticas públicas, batalhar por participação em todas as etapas, e pressionar o poder público pela efetivação dos povos indígenas continuam sendo o caminho, assegura o vice-presidente do Cimi.

 Jornalista da Adital
Ao publicar em meio impresso, favor citar a fonte.

Caçadora de Memórias femininas

Domingo, 4 março de 2007




Caçadora de memórias femininas

ENTREVISTA

Michelle Perrot
Historiadora e professora emérita da Universidade Paris 7


Ela apóia as libertárias, sonha com um feminismo desbravador, mas seu métier é discreto: revirar um passado de silêncios, para construir a história das mulheres
Laura Greenhalgh

Quando se fala em história das mulheres, o nome da francesa Michelle Perrot salta como unanimidade. Aos 79 anos, vivendo e trabalhando em Paris, ela mantém-se como referência para estudos acadêmicos e alento para incontáveis ramificações do movimento feminista. Porém, ao contrário das ativistas americanas nos anos 60, Michelle não queimou sutiãs em praça pública. Há meio século dedica-se a um trabalho até silencioso: escavar o tempo, remover camadas de esquecimento e recompor um passado feito de silêncios.
Poucos historiadores, como ela, saberiam explicar tão bem as dificuldades dessa recomposição. Começa pelo fato das mulheres terem tido acesso tardio à escrita - ainda hoje sentem-se os efeitos desse atraso. Depois, pela natureza do trabalho doméstico ao qual estiveram restritas as “senhoras” do lar: trabalho duro, em grande parte repetitivo, que some sem deixar vestígios. Fora isso, a História com “h” maiúsculo preferiu registrar a passagem pelo mundo de mulheres notáveis ou excepcionais. Como Catarina de Médici (1519-1589), a soberana sempre lembrada para exemplificar os inconvenientes das mulheres no poder.
Não foram, portanto, nada fáceis as pesquisas de Michelle Perrot, que há semanas teve lançado no Brasil seu livro mais recente, Minha História das Mulheres (Editora Contexto) - fruto de relatos seus para o rádio, em programa transmitido pela Radio France Culture. E por que “minha” história? Porque, com meio século de dedicação à (re)descoberta do feminino, Michelle pode fazer as escolhas teóricas que quiser. Neste livro, por exemplo, dedica um capítulo inteiro à análise do cabelo das mulheres ao longo dos tempos. As mechas desgrenhadas das feiticeiras, as madeixas das casadoiras, as cabeças raspadas das condenadas, os fios curtos das garotas da Belle Époque, e por aí vai. Leitura deliciosa.
Vale ressaltar um aspecto: Michelle é uma historiadora que sabe olhar e o faz constantemente nas suas decifrações. Tanto que, junto com o colega George Duby, o especialista francês em Idade Média, assinou o clássico Images des Femmes, no qual analisam representações do feminino nas artes. Nesta entrevista ao caderno Aliás, marcando o Mês Internacional da Mulher, Michelle Perrot distancia-se da linguagem libertária das ativistas para se posicionar diante de uma “história sem fim”. Reconhece que o feminismo ajudou-nos a romper um silêncio milenar, mas lamenta que o movimento ainda seja majoritariamente “branco”, saído da classe média e movido por mulheres que chegaram à universidade. E as muitas outras? Argumenta que as feministas pouco sabem sobre o que se passa nas zonas mais “obscuras” do planeta e, por fim, pondera: “Até podemos começar a escrever sobre as africanas. Mas elas próprias é que terão de fazê-lo. As mulheres fazem a história da mesma forma como tomam o próprio destino nas mãos.”



Em seu livro, a senhora pondera que o feminismo deslanchou a partir dos anos 70, quando as mulheres começaram a ocupar as universidades. Mesmo em Paris, terra de Simone de Beauvoir, este é o marco cronológico?



Sem dúvida. É a presença das mulheres nos campi que detona o movimento. No começo, com muita hesitação. Quando, em 1973, decidi com duas colegas da universidade (Paris 7 - Jussieu) organizar um curso sobre a história das mulheres, bateu-nos de cara uma dúvida. Como batizar o curso? Pisávamos um território novo, não tínhamos idéia de como aquela iniciativa seria recebida. Então, na dúvida, criamos o seguinte nome: “As mulheres têm uma história?”. Ou seja, o curso, já no seu enunciado, expressava uma indagação. E por que fomos tão cautelosas? Primeiro, porque sequer tínhamos material teórico suficiente para fundamentar as aulas. Segundo, porque vivíamos sob a influência, ainda dominante, do estruturalismo, que via as mulheres como “objetos de troca”. Outro motivo: havia uma tendência nítida no mundo acadêmico de privilegiar a história pública, quando, no caso das mulheres, buscava-se a informação confinada no espaço privado. Por fim, havia a crença inabalável de que a história é feita pelos homens. Até uma feminista como Simone de Beauvoir acreditou nisso. Com tantos obstáculos a vencer, minhas companheiras e eu decidimos que melhor seria apresentar o curso sob a forma de uma pergunta.



E qual foi a receptividade?



A boa procura provou que estávamos no caminho certo. Hoje, esse tipo de dúvida não tem mais sentido. O desenvolvimento da história das mulheres, ao longo dos últimos 30 anos, tem sido imenso e se espalha por todo o mundo. Pesquisas, livros, toda essa produção teórica, que ainda é nova, está criando volume, fazendo com que as mulheres se tornem seres mais “familiares”. Porque atravessaram séculos como “desconhecidas”. Hoje estamos conseguindo recompor suas feições, reconstituir seu lugar no mundo, seja ele individual ou coletivo. São evoluções que se processam diante de nós, criando novas compreensões sobre a relação entre os sexos. E, o que é mais notável: o desenvolvimento desta disciplina está se fazendo acompanhar da tomada de consciência das próprias mulheres como portadoras de identidade sexuada. São processos concomitantes.



Isso se aplica a mulheres “do outro lado do mundo”, mulheres que ainda hoje vivem em sociedades culturalmente fechadas, submissas a controles sociais e religiosos?



Posso afirmar o seguinte: a construção da história das mulheres depende delas próprias, mesmo que não estejam diretamente vinculadas a isso. O ponto de partida dessa construção pressupõe uma certa autonomia e acesso à cultura. No fundo, as mulheres tomam sua história nas mãos da mesma maneira como tomam seu destino nas mãos. Daí o avanço das ocidentais. Mais emancipadas, elas puderam recuperar uma trajetória. Isso significa que estamos “nem aí” para as mulheres de outras partes do mundo? Desprezamos tudo o que não seja nosso? Não é isso, porém, honestamente, não poderemos substituir as mulheres africanas na construção de sua história. Seria como colonizá-las de novo. Em compensação, é impossível não ver hoje o desejo vivo de história que as japonesas e indianas têm. São mulheres ligadas a grupos feministas, centros de pesquisa, universidades, enfim, estão escrevendo muito.



Para construir a própria história, as africanas precisam adotar uma perspectiva feminista?



Uma certa consciência feminista é necessária para iniciar a alavancagem do processo, porque vai ajudar na hora de contestar o “inquestionável” e na fase de romper o silêncio. Tem sido assim. É na agitação do movimento de mulheres que brota aquela vontade de escrever sobre nosso passado e presente. Agora, veja bem: essa consciência é necessária, porém insuficiente. Erguer o edifício da história nos impõe regras. Marc Bloch fala muito do “métier” do historiador e suas exigências. Começa que não somos proprietários de algo que pertence a todos.



Já se disse que, por sair do campo privado, onde reinam as “miudezas” da vida, a história das mulheres seria uma espécie de infra-história que atravessa as sociedades. Concorda com tal visão?



Durante muito tempo, mulheres estiveram confinadas às sombras da vida privada. É em lugares escondidos que nós, historiadores, vamos buscá-las primordialmente. Daí o esforço em penetrar zonas isoladas, em buscar fontes de informação de caráter íntimo, como cartas e diários.Também dedicamos especial atenção aos gestos e cenários do cotidiano. O quarto, a cozinha, os conflitos em família, os costumes do dia-a-dia... Essa maneira de lidar com as coisas nos enriquece de saberes. Leva-nos a uma história das gentes, incluindo a dos homens.



Pensadores importantes e colegas seus, como Eric Hobsbawn e Perry Anderson, manifestam-se com grande entusiasmo sobre o movimento das mulheres. Chegam a dizer que resultou na transformação social mais importante do século passado. Então, por que o feminismo ainda é malvisto ou, no limite, visto com reservas?



Embora Hobsbawn e Anderson se manifestem com animação, será que eles acreditam mesmo nisso? Será que estão convencidos? Eu tenho lá minhas dúvidas. Entre muitos historiadores de viés marxista persiste a idéia de que o movimento feminista esbarra em impasses insuperáveis. E ficam se questionando: é possível substituir classe por sexo? Não saem do lugar. Mesmo entre aliados das mulheres, há um certo mal-estar. Caso de Pierre Bourdieu, um dos primeiros intelectuais a falar da “dominação masculina”. A verdade é que a contestação feminista não é fácil de entender, muito menos de aceitar. Nem para os homens, muito menos para aquelas mulheres que só sabem jogar no campo da sedução. São pessoas que preferem rotular as feministas de feias, virilizadas, sem graça. Por isso fico particularmente feliz quando encontro uma jovem bonita, dizendo-se feminista. Dançando, rindo e dizendo-se feminista, como acontecia naqueles anos 70.



Isso está ficando raro...O feminismo envelheceu?



Concordo, está mais raro. Mas a questão não é exatamente se o movimento envelheceu. Observo hoje garotas de 20 anos, estudantes, que fazem indagações do tipo: “Feminista? Eu? Por que teria de ser?” Como se quisessem dizer: a causa já foi incorporada, tudo isso é uma evidência.



Ainda que Beauvoir tenha sido uma pioneira, com a obra “O Segundo Sexo”, de 1949, hoje o que se vê é que os “womens’s studies” prosperaram muito mais nos EUA que na Europa.



Sem dúvida. O feminismo anglo-americano é rico de escritoras: Betty Friedan, Sheila Rowbotham, Denise Riley, Judith Butler...elas produziram textos muito importantes. Entre as historiadoras, eu poderia lembrar Natalie Zemon Davis, Joan Scotth, Lynn Hunt. São particularmente conhecidas na França, onde gozam do reconhecimento da comunidade acadêmica. Mas essa produção teórica, ou boa parte dela, ainda precisa sair do gueto. Precisa circular em livros que falem a um público mais expressivo que o dos círculos feministas. A história das mulheres deveria irrigar todo um campo do saber, funcionando como elemento essencial de intelegibilidade.



Feminismo é contracultura?



Há, na França, e sem dúvida em muitos outros lugares, diferentes tipos de feminismo. Há o “feminismo da diferença”, que insiste na alteridade das mulheres, muito ligado à questão do corpo. Há o feminismo mais universalista, que teme esse “fechamento” na tese da diferença. Ele está voltado para as possibilidades da democracia, portanto, não quer para si o carimbo da contracultura. Agora, o feminismo da diferença e mesmo a experiência cotidiana das mulheres podem servir de elementos para uma contracultura.



Para que lado vai a nau feminista?



Acho que estamos em condições de encontrar uma terceira via, um feminismo de reconciliação, que seja ao mesmo tempo universal e alternativo.



As mulheres trabalham mais, estudam mais, ocupam espaços, estão mais independentes, porém, as desigualdades persistem. O masculino ainda é o eixo que organiza a pós-modernidade?



Apesar de todo o “progresso” feminino, as desigualdades persistem em todos os domínios, especialmente no que concerne à decisão política e econômica. A hierarquia dos sexos, que rege a organização das sociedades desde a “noite dos tempos”, lembrando aqui expressão da antropóloga Françoise Héritier, não só persiste como não poderá ser abolida rapidamente. É uma transformação de longa duração, um desafio que não se conquista assim, de um momento para o outro, até porque se desdobra em transformações práticas e simbólicas. Como a divisão do trabalho doméstico.



O fundamentalismo, crescente no mundo, pode fazer o movimento das mulheres recuar, mesmo no Ocidente?



Existe o fundamento religioso, mas também existe o laico. E ambos constituem uma das ameaças mais fortes às mulheres nos dias que correm. Fundamentalismos reafirmam, com muita força, a hierarquia sexual, hierarquia que passa a ser entendida como a expressão da vontade de Deus, enraizada na natureza que “Ele” criou. Isso estimula a multiplicação das mulheres submissas, invisíveis e dominadas em seu amedrontamento progressivo. O véu é apenas o símbolo mais evidente. O fundamentalismo já se instalou no coração da Europa secular: enquanto os católicos contestam agressivamente o direito ao abortamento, os islâmicos fazem questão de cobrir a cabeça de suas filhas, que continuam casando cedo, contra a própria vontade. E os assassinatos classificados como “crimes de honra” proliferam.



A prostituição também avança em vários pontos do globo, envolvendo meninas. O que é isso? Pauperização das mulheres ou reafirmação da chamada “necessidade sexual masculina”, que é uma idéia discutida em livros seus?



A pobreza continua sendo, de longe, o propulsor da prostituição. É a engrenagem perversa que explora a miséria e as carências das mulheres. Na França, os usuários desse sistema têm olhado muito para a Europa do Leste e países da África. Há também fluxos migratórios de homens solteiros que vêm para a Europa e vão saciar seu “irrepreensível apetite sexual” com prostitutas. São fenômenos de massa. Por outro lado, a prostituição de luxo, a das call girls, é uma atividade econômica de livre escolha, que vem diminuindo.



A impressão que se tem é que o feminismo continua sendo um movimento de mulheres brancas, com estudo e majoritariamente vindas da classe média. Mesmo o feminismo brasileiro, elogiado pela senhora, parece conhecer pouco a vida da mulher na favela, da mulher com filho ou marido no presídio ou da garota negra do movimento hip-hop.



É verdade, as articulações feministas no Brasil têm muito vigor. Quanto ao feminismo, de modo geral, ele ainda diz respeito sobretudo às mulheres brancas, das camadas médias da sociedade. Isso fica muito evidente na América Latina, onde as divisões sociais são mais acentuadas que na Europa ou nos EUA. Mas, aqui na França, observo que o feminismo de classe média penetrou no meio popular de diversas formas: na vontade que as mulheres de baixa renda manifestam em ter acesso à contracepção, no seu desejo de autonomia, na afirmação visual das garotas da periferia, na garra que elas têm de estudar e nos recorrentes protestos contra a violência doméstica. Existe até um movimento nos banlieues cujo slogan é “ni putes, ni soumises” (nem putas, nem submissas).



E o que ele defende, afinal?



O direito à independência, liberdade e instrução escolar. Na África, o movimento vai desbravando grotões em sua campanha contra a mutilação genital e na cobrança por programas de proteção contra a Aids. Dito de outra forma: as idéias e os comportamentos feministas estão sendo difundidos e exercem um poder de atração sobre mulheres desfavorecidas. Agora, dou-lhe razão. Tenho consciência de pertencer a um meio privilegiado e protegido, que ainda desconhece outras realidades sociais e étnicas. Modestamente, tenho que consentir nisso.



Como diminuir esse vão histórico?



Pois é, nossa ignorância sobre as africanas é imensa. Inclusive porque a história delas não está escrita. Ou o que se tem é muito pouco. Sobretudo na última década, os estudos avançam na medida em que pesquisadoras africanas chegam às universidades. Tenho conferido isso na minha própria universidade, em Paris, onde antes só havia o departamento “Terceiro Mundo”. Hoje não só este nome caiu por terra, como mais e mais vejo mulheres vindas da África. Ainda temos poucas teses acadêmicas, poucos livros, porém as africanas vão alcançando estruturas de poder - seja na universidade, na administração pública, na política. Estas pioneiras estão jogando um papel decisivo na transformação de realidades. Evidentemente, se começo a pensar no genocídio em Ruanda, sou forçada a admitir: o progresso delas ainda é irrisório.



A partir de 1994, com a Conferência de População e Desenvolvimento do Cairo, da ONU, a saúde reprodutiva ganhou papel central na agenda feminista- contracepção, aborto, planejamento familiar. É hora de atualizar a agenda?



Toda agenda social precisa ser atualizada em função dos problemas que surgem e das soluções que se encontram. Acho que hoje o combate à Aids está mais desafiador do que nunca, mesmo que o acesso a medicamentos tenha aliviado a situação em alguns lugares. E o desafio maior permanece: como as mulheres podem ter domínio sobre a informação, em matéria de sexualidade?



Uma mulher socialista, Ségolène Royal, tem chances de vitória nas eleições presidenciais francesas. Hillary Clinton, senadora democrata, tenta o mesmo nos EUA. Cresce timidamente o diminuto clube das chefes de Estado. A conquista do poder político poderá ser um marco na história das mulheres no século 21?



A candidatura de Ségolène já causou um impacto considerável na sociedade francesa. Pela primeira vez, aqui, uma mulher ousa dizer: eu quero ser presidente da República. A França é um país onde a política, há muito tempo, é território masculino. As francesas só conseguiram o direito ao voto em 1944, quando apenas as gregas ainda não tinham conseguido!



Como está hoje a representação política das francesas?



Somos ainda 13% do Parlamento, embora haja uma lei de paridade. Durante muito tempo pensou-se que política é assunto de homem. E que as mulheres têm coisas mais doces a fazer. Então, a ambição de Ségolène é nova. Esta mulher conseguiu se impor no Partido Socialista e aparece como uma candidata com credibilidade e competência. Alguém que pode melhorar a segurança na perspectiva da “ordem justa”. Combinar proteção social com crescimento econômico. Aperfeiçoar a democracia participativa e até modernizar o socialismo. Isso é o que Ségolène pode fazer. Se vai conseguir ou não, é outra história. Primeiro porque hoje a esquerda é minoritária na França. Depois, porque reflexos machistas poderão se fazer sentir. Hillary também tem chances. E obstáculos. De qualquer forma, começamos a provar o sentimento de que é chegado o nosso tempo na política.



A família está mudando. Homens e mulheres casam, separam, casam de novo. Experimentam novos papéis dentro de casa. Técnicas de reprodução mudam o panorama da concepção e fertilidade. Casais gays vão sendo assimilados em termos sociais e jurídicos. Enfim, o próximo capítulo do feminismo será escrito no espaço privado?



Não tenho dúvida. O casamento já não é a instituição pesada de outros tempos. Sexo e procriação são processos dissociados, e tudo começou com o controle feminino da contracepção que, a meu ver, foi a grande revolução do século 20. Mas as desigualdades estão aí. O trabalho doméstico, incluindo cuidados com os filhos, ainda sobra para as mães. Vemos, com estupor, tantas mulheres agredidas. Cresce o número de famílias mantidas integralmente por mulheres empobrecidas. Nem a participação no espaço público nem mesmo a lei garantem que, dentro de casa, as coisas estejam resolvidas. Mudar práticas e costumes cotidianos é o mais difícil. Quero terminar citando o filósofo francês Charler Fourier, um socialista utópico do século 19. Ele dizia que a “casa” é o verdadeiro lugar do poder. E sonhava com um outro espaço, o Nouveau Monde Amoureux, título de um de seus livros. Francamente, este mundo ainda está por ser inventado.
Links Patrocinados

Estadao.com.br
O Estado de S.Paulo
Jornal da Tarde
Agência Estado
Radio Eldorado
Listas OESP
Copyright © Grupo Estado. Todos os direitos reservados.